Bioética
Bioética é o estudo transdisciplinar entre biologia, medicina e filosofia ([ética]), que investiga as condições necessárias para uma administração responsável da vida humana (em geral) e da pessoa (em particular). Considera, portanto, questões onde não existe consenso moral como a fertilização in vitro, o aborto, a clonagem, a eutanásia, os transgênicos e as pesquisas com células tronco, bem como a responsabilidade moral de cientistas em suas pesquisas e suas aplicações.
Índice
[esconder]
1 História
2 Tópicos
3 Teorias
4 Referências
5 Ver também
6 Ligações externas
[editar] História
Bioética é um neologismo construido a partir das palavras gregas bios (vida) + ethos (relativo à ética). Segundo Diniz & Guilhem[1], "...por ser a bioética um campo disciplinar compromissado com o conflito moral na área da saúde e da doença dos seres humanos e dos animais não-humanos, seus temas dizem respeito a situações de vida que nunca deixaram de estar em pauta na história da humanidade..."
As diretrizes filosóficas dessa área começaram a consolidar-se após a tragédia do holocausto da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo ocidental, chocado com as práticas abusivas de médicos nazistas em nome da Ciência, cria um código para limitar os estudos relacionados. Formula-se aí também a idéia que a ciência não é mais importante que o homem. O progresso técnico deve ser controlado e acompanhar a consciência da humanidade sobre os efeitos que eles podem ter no mundo e na sociedade para que as novas descobertas e suas aplicações não fiquem sujeitas a todo tipo de interesse.
O termo foi mencionado pela primeira vez em 1971, no livro "Bioética: Ponte para o Futuro", do biológo e oncologista americano Van R. Potter. Pouco tempo depois, uma abordagem mais incisiva da disciplina foi feita pelo obstetra holandês Hellegers.
Mais que uma meta-ética, a bioética transpõe-se a um movimento cultural: é neste humanismo que se pode englobar conceitos entre o prático biodireito e o teórico biopoder. É desta maneira que sua constante revisão e atualização se torna uma característica fundamental.
[editar] Tópicos
A problemática bioética é numerosa e complexa, envolvendo fortes reflexos imprimidos na opinião pública sobretudo pelos meios de comunicação de massa. Alguns exemplos dos temas alarmados:
Aborto
Clonagem
Eutanásia
Ética médica
Transgênicos
Pesquisas com células tronco
[editar] Teorias
Edmund Pellegrino, um dos pais da bioética, afirma que se deve buscar a raiz humanista da medicina, e que tal operação deve passar pela redescoberta da tradição hipocrática. Beauchamp e Childress, por sua vez, propõem uma teoria de princípios que determina quatro princípios para a ética biomédica: autonomia da medicina, não-malefício, benefício e justiça. Robert Veatch propõe cinco pontos fundamentais na relação entre o médico e o paciente: autonomia, justiça, compromisso, verdade e não matar.
A teoria utilitarista, em contraposição direta com o paradigma tradicional da ética médica, remove a sacralidade da vida humana do centro da discussão e a substitui pelo paradigma de maximização da qualidade de vida.
"Racismo" científico I
Nem tudo o que parece é.
Qualquer Portuense por muito moreno que seja (obviamente refiro-me a portuenses de sangue) é entre 98% a 100% branco, caucasiano, ou o que preferirem chamar, ao passo que por exemplo muitos brasileiros podem aparentemente ser brancos e loiros, mas esses brasileiros das duas uma, ou são filhos de pai e mãe europeus que emigraram para o Brasil, ou então têm muito sangue índio e negróide que herdaram dos seus antepassados.
Aparentemente muitos dos brancos do Brasil são loiros, mas fazendo um teste genético principalmente ao mtDNA facilmente encontram as linhagens negróides e amerindias, linhagens essas que estão completamente ausentes (ou são residuais) nos habitantes do Norte de Portugal, por muito que o Minhoto ou o Transmontano seja mais "moreno" que o Brasileiro.
Mesmo no sul do Brasil, verificamos que a população aparentemente "branca" tem na realidade 12% de linhagens femininas negróides e 24% de linhagens amerindias, ou seja de índias, no entanto no sul do Brasil 64% das linhagens femininas são de facto europeias.
Claro que no norte do Brasil a miscegenação é ainda maior, aí 55% das linhagens femininas dos "brancos" são amerindias.
No nordeste Brasileiro 44% das linhagens femininas dos "brancos" são negróides. E repito que estou só a falar da população branca, analisando somente aqueles que se auto-consideram como brancos.
A herança genética Índia nos brasileiros é muito maior do que geralmente se supõe.
De facto os portugueses massacraram o povo autóctone da terra que invadiram, mas ao mesmo tempo que o faziam procriavam com as índias. Desde o começo da colonização, foram de Portugal para o Brasil principalmente homens, e raríssimas mulheres. E os colonos, desde o início, acasalavam-se com as índias, formando focos de mamelucos, resultado da miscigenação entre índios e portugueses. No final do século 16 quase metade da população brasileira era branca, mas branca da terra, isto é, mamelucos. E, no conjunto da população, o número de brancos europeus era ínfimo.
Numa sociedade com carência principalmente de mulheres, os índios e negros aliciados como escravos raramente conseguiram uma companheira", inutilizando-se como povoadores. Os descendentes mestiços do cruzamento entre europeus, índias e negras foram aqueles que formaram o povo brasileiro e constituíram a identidade brasileira até praticamente 1850.
Os brasileiros surgiram efectivamente do cruzamento de portugueses brancos com multidões de mulheres índias e negras.
A elite Brasileira racista dos séculos XIX e XX sonhou promover, com a imigração europeia, o branqueamento da população. Mas os imigrantes não formaram núcleos étnicos isolados, incorporando-se à população já existente através dos casamentos.
Eu considero que esse tipo de "branqueamento" é uma forma de mestiçagem, apesar de reconhecer que foi bem intencionado, o "branqueamento" não eliminou nem poderia eliminar o que já estava irremediavelmente presente no sangue.
Alguns brasileiros tiveram a coragem de defender um ponto de vista elitista, como por exemplo Oliveira Viana, que considerava defeituosa e inadequada a formação racial do povo brasileiro, devido à enorme presença nela do negro, do índio e dos mestiços.
Oliveira Viana defendeu um Brasil onde a elite branca, "ariana", era tudo, e o povo, descendente do cruzamento da minoria europeia com índios e africanos, era o problema.
No entanto, como é óbvio, qualquer brasileiro que seja apenas e só descendente de europeus (o que a partir da segunda geração é muito complicado) já pode ser considerado racialmente europeu, apesar de ter nascido na América do Sul, mas isto só é valido para estes casos. Os japoneses por exemplo cometem esse erro, já que permitem que descendentes de japoneses nascidos no Brasil optem por ir viver para o Japão, e cometem um erro porque uma coisa é ser-se exclusivamente descendente de japoneses, outra coisa muito diferente é ser-se descendente de japoneses misturado com brasileiros, e o Japão erra ao convidar estes últimos a trabalhar no Japão.
Ao defender um "racismo" científico considera-se que os traços culturais são pouco relevantes e o que pesa é o fundamento biológico.
Claro que os patrioteiros podem dizer que este discurso é desumanizador, estão no seu direito, até considero normal que os patrioteiros prefiram dar importância à língua que lhes foi imposta, à bandeira, e até quem sabe à selecção de futebol.
Nesse sentido é importante distinguir o "racismo" popular do "racismo" cientifico, porque são duas coisas diferentes. O "racismo" popular baseia-se numa percepção empírica de características físicas palpáveis, ao passo que o "racismo" cientifico baseia-se no património genético.
Fonte: Os dados genéticos sobre a população do Brasil foram retirados da revista "Ciência Hoje" de Abril de 2000
domingo, 2 de novembro de 2008
DERIVA GENÉTICA
Bebês à la carte ?
Colunista explica por que é improvável que consigamos um dia programar como serão nossos filhos
Reza o dito popular que de urna de eleição e barriga de mulher grávida ninguém pode dizer o que vai sair. Realmente, toda reprodução humana é uma loteria genética. Pela diversidade dos nossos genomas, cada casal é capaz de gerar um número estonteante de pimpolhos geneticamente diferentes entre si, do resto da família e de toda humanidade. Assim, o processo é absolutamente imprevisível. Mas há quem queira controlá-lo.
Não falo aqui meramente da detecção de doenças ainda no útero por meio de diferentes tipos de diagnóstico pré-natal. Estou falando de gente que seriamente quer planejar características de seus filhos, tais como cor da pele e dos olhos, altura, habilidades, traços de comportamento e nível de inteligência. Gente que quer usar a genética molecular, técnicas de clonagem e terapia gênica para "engenheirar" a natureza humana. Em outras palavras, produzir bebês à la carte .
Tivemos uma introdução distópica a essa possibilidade no excelente filme Gattaca (o título é formado pelas iniciais das quatro bases do DNA: G, A, T e C). Aliás, Gattaca é um dos melhores filmes de ficção científica, resistindo bravamente ao rigoroso teste do tempo. Feito há nove anos, em 1997, continua tão válido e instigante como se tivesse sido lançado ontem.
O cenário Gattaca
Cartaz do filme Gattaca , de 1997, dirigido por Andrew Niccol.
Gattaca se passa em um futuro no qual os bebês são geneticamente planejados. Antes da sua implantação, embriões concebidos in vitro são submetidos a uma triagem para remoção de defeitos genéticos e seleção de características físicas e mentais desejáveis. Muitos são descartados e os restantes são geneticamente modificados de acordo com as especificações da sociedade e dos pais.
Para sua desventura, o herói do filme, Vincent (xará do pintor holandês van Gogh, o que não é uma coincidência, como veremos mais abaixo), foi resultado de um ato de amor, ao invés de ser concebido em proveta. Ainda na sala de parto, um teste de DNA mostra que ele tem uma probabilidade de 99% de desenvolver um problema cardíaco e morrer antes dos 30 anos. Vincent passa a vida lutando contra esse sombrio "destino genético" e burlando o sistema, que não permite que indivíduos "defeituosos" como ele se tornem astronautas.
Não contarei o resto do filme para não estragar o divertimento de quem deseje vê-lo (aliás, recomendo-o entusiasticamente). De qualquer maneira, quando os pais de Vincent planejam uma nova gravidez, abrem mão do amor e optam por um bebê à la carte como todos os outros daquela sociedade. Quão viável é esse cenário Gattaca ?
Quem diz "isto é impossível" com relação a avanços tecnológicos quase sempre vai dar com os burros n'água e ainda corre o risco de fazer papel de bobo. Mesmo assim vou me arriscar e prognosticar que o cenário Gattaca não é possível agora e nunca o será. Logo, logo, vou explicar por que me atrevo a fazer uma afirmativa tão contundente. Mas antes temos de revisar alguns princípios fundamentais da genética.
Genótipo e fenótipo
O botânico dinamarquês Wilhelm Ludvig Johannsen (1857-1927) foi um grande inovador de palavras e conceitos. Em 1909, ele inventou o termo gene, a partir do grego, "que dá nascimento a". No mesmo ano, ele introduziu dois conceitos fundamentais, o de genótipo – o conjunto estático de genes de um indivíduo - e o de fenótipo – o conjunto dinâmico de suas características observáveis. Essa distinção é fundamental para a compreensão de fenômenos genéticos.
Intervindo entre o genótipo e o fenótipo há os processos de desenvolvimento embrionário, fetal e pós-natal, que recebem amplas influências do ambiente. Muitas vezes diferenças genotípicas não se manifestam como diferenças fenotípicas. Isso se deve à existência tanto de redundância quanto de homeostase no sistema. O grande biólogo escocês Conrad Waddington (1905-1975) foi o primeiro a propor a noção de que alguns aspectos do desenvolvimento embrionário são "canalizados" (no sentido de oferecer resistência a desvios), um tópico que abordaremos em uma de nossas colunas futuras.
O reverso também é verdadeiro, ou seja, o mesmo genótipo pode levar a diferentes fenótipos, dependendo do ambiente. Foi bem colocado pelo famoso evolucionista Theodosius Dobzhansky (1900-1975), em seu maravilhoso livro de 1956 poeticamente intitulado As bases biológicas da liberdade humana , que todas as características e qualidades humanas resultam da interação da hereditariedade com uma sucessão de ambientes no processo de viver.
Assim, o fenótipo de uma pessoa em um dado momento é determinado por seu genótipo e pela sua história de vida. Isso pode parecer o óbvio ululante, mas o que freqüentemente não é entendido é que os efeitos do genótipo e do ambiente não são meramente aditivos. Na realidade, eles interagem de uma maneira bem complicada.
A interação gene-ambiente
Experimento de J. Clausen, D.D. Keck e W.M. Heisey, do Carnegie Institute em Washington, com a planta Achillea (mil-folhas). Sete clones diferentes foram cultivados em três altitudes distintas (chamadas Stanford, Mather e Timberline) na Califórnia. As plantas de cada coluna têm genótipos idênticos (são clones), mas as plantas de colunas distintas têm genótipos diversos; cada linha representa uma altitude específica. Observe que o mesmo genótipo reage de maneira diferente à altura e produz fenótipos bem díspares e que as "normas de reação" são diferentes para genótipos distintos.
Imaginemos dois estudantes, João e Pedro, em uma escola de má qualidade, com João tendo melhor aproveitamento e melhores notas que Pedro. Se os dois forem transferidos para uma boa escola, a tendência das pessoas é esperar que ambos melhorem o nível do aprendizado, mas que João continue a ter melhor desempenho. Esta é a falácia do pensamento linear.
A complexidade da interatividade entre genótipo e ambiente foi cogentemente demonstrada em experimentos clássicos de botânica nas décadas de 1940 e 1950 por J. Clausen, D.D. Keck e W.M. Heisey , do Carnegie Institute em Washington. Vejamos como foi o experimento deles.
Sete clones de diferentes espécimes da planta Achillea (mil-folhas) foram cultivados em três altitudes distintas (chamadas Stanford, Mather e Timberline) na Califórnia, como mostra a figura ao lado. As plantas de cada coluna têm genótipos idênticos (são clones) e as linhas horizontais representam as altitudes diferentes em que cresceram. Uma simples inspeção mostra em cada coluna que o mesmo genótipo condicionou fenótipos bem díspares dependendo da altitude, ou seja, o mesmo genótipo reagiu de maneira diferente às variáveis ambientais.
Mas as reações não são as mesmas para os genótipos distintos. Em outras palavras, cada genótipo determina uma "norma de reação" diferente. Por exemplo, o primeiro clone à esquerda (3971-4) cresce bem nas altitudes de Stanford e Timberline, mas mal na altura intermediária de Mather. Já o quarto clone da esquerda para a direita (24) cresce muito melhor em Mather do que nas outras duas altitudes.
Quais as conclusões desse estudo? Primeiro e mais importante: não existe um genótipo "melhor"!!! Conceitos de valor não podem ser aplicados a genótipos sem especificação do ambiente. Ou seja, um genótipo é bom ou ruim dependendo do ambiente; um ambiente é bom ou ruim dependendo do genótipo. A interação dos dois é íntima, complexa e não-linear. Relembrando o exemplo anterior, ao mudar de escola, Pedro pode se tornar um aluno muito melhor que João. O efeito do binômio gene/ambiente sobre a dinâmica fenotípica é imprevisível.
Para complicar, além do genótipo e do ambiente, há uma terceira variável: a contingência . Certamente a variação estocástica é parte intrínseca dos processos de desenvolvimento e sua importância vai depender de quão "canalizados" eles são.
Nenhum gene é uma ilha
O embrião do genial pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), afetado com a picnodisostose, uma forma autossômica recessiva de baixa estatura, não seria considerado viável no cenário Gattaca .
Voltemos ao filme Gattaca . No planejamento das características psíquicas e comportamentais dos bebês, os geneticistas simplesmente não saberiam qual genótipo "engenheirar", simplesmente porque nunca poderiam prever a norma de reação com relação a todos os ambientes futuros que aquela criança encontrará em sua vida. Daí a minha certeza de que o cenário Gattaca jamais se concretizará. E será possível no futuro a eliminação de características indesejáveis tais como tendências criminais, predisposições à dependência de drogas, distúrbios de comportamento e outros?
Não. Esta é outra idéia falaciosa, tendo os defeitos de simultaneamente hipervalorizar e hipersimplificar o papel do componente genético. De certa maneira, a falácia resulta das metáforas corriqueiramente usadas com relação à genética. Por exemplo, fala-se no "gene para a inteligência". Mas, se pensarmos por um minuto, veremos que não há "um gene" para a inteligência!
Para que um indivíduo tenha alta inteligência (aliás, algo difícil de se definir), é necessário primeiro que ele tenha um sistema nervoso central formado pela interação do conjunto de todos os seus genes com o ambiente durante o processo de desenvolvimento embrionário. Além disso, o indivíduo terá de sobreviver aos riscos da infância, ter certa saúde e ser educado em um meio propício.
Ninguém herda um "gene da inteligência", mas um genótipo que, como um todo, condiciona um certo nível de inteligência em complexa interação com o ambiente. Parafraseando o poeta renascentista inglês John Donne (1572-1631), podemos dizer que "nenhum gene é uma ilha". Como já alertava Dobzhansky, não herdamos vícios, gostos, desgostos ou comportamentos. Simplesmente herdamos uma constelação de genes, o genótipo.
Analogamente, não podemos nos esquecer de que o ser humano é um todo e não a soma de partes que possam ser modificadas independentemente umas das outras. A mesma característica pode ser qualidade ou defeito, dependendo do contexto. Um indivíduo agressivamente competitivo pode ser de difícil convivência, mas essas mesmas características o tornam um homem de negócios brilhante ou um esportista de sucesso. A violência de Rambo o fez um super-herói no Vietnã, mas inadequado para a vida civil nos Estados Unidos.
O famoso quadro Noite estrelada , do pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890), que sofria de esquizofrenia.
Assim, mesmo que pudéssemos, não deveríamos tentar fazer uma seleção pré-natal de embriões, exceto em casos de doenças graves e incuráveis que possam comprometer radicalmente a qualidade de vida do indivíduo. Deveríamos descartar o embrião do genial pintor francês Toulouse-Lautrec porque ele era portador de uma forma autossômica recessiva de nanismo, chamada picnodisostose? Ou eliminar o embrião de Wolfgang Amadeus Mozart porque seu genoma continha genes possivelmente relacionados com um distúrbio de comportamento hoje conhecido como síndrome de Gilles de la Tourette?
Mozart era um gênio apesar de seu distúrbio de personalidade, ou seria sua genialidade uma faceta desse distúrbio? Beethoven compôs a nona sinfonia apesar de sua surdez ou porque era surdo? Vincent van Gogh pintou o seu maravilhoso Céu estrelado apesar da esquizofrenia ou justamente por causa dela? Como ficaria a criatividade de uma sociedade Gattaca de pequenos burgueses, sadios e contentes em sua mediocridade?
Bebês à la carte ? Não, obrigado, prefiro a surpresa do chef !
Sergio Danilo Pena
Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais
08/12/2006
Colunista explica por que é improvável que consigamos um dia programar como serão nossos filhos
Reza o dito popular que de urna de eleição e barriga de mulher grávida ninguém pode dizer o que vai sair. Realmente, toda reprodução humana é uma loteria genética. Pela diversidade dos nossos genomas, cada casal é capaz de gerar um número estonteante de pimpolhos geneticamente diferentes entre si, do resto da família e de toda humanidade. Assim, o processo é absolutamente imprevisível. Mas há quem queira controlá-lo.
Não falo aqui meramente da detecção de doenças ainda no útero por meio de diferentes tipos de diagnóstico pré-natal. Estou falando de gente que seriamente quer planejar características de seus filhos, tais como cor da pele e dos olhos, altura, habilidades, traços de comportamento e nível de inteligência. Gente que quer usar a genética molecular, técnicas de clonagem e terapia gênica para "engenheirar" a natureza humana. Em outras palavras, produzir bebês à la carte .
Tivemos uma introdução distópica a essa possibilidade no excelente filme Gattaca (o título é formado pelas iniciais das quatro bases do DNA: G, A, T e C). Aliás, Gattaca é um dos melhores filmes de ficção científica, resistindo bravamente ao rigoroso teste do tempo. Feito há nove anos, em 1997, continua tão válido e instigante como se tivesse sido lançado ontem.
O cenário Gattaca
Cartaz do filme Gattaca , de 1997, dirigido por Andrew Niccol.
Gattaca se passa em um futuro no qual os bebês são geneticamente planejados. Antes da sua implantação, embriões concebidos in vitro são submetidos a uma triagem para remoção de defeitos genéticos e seleção de características físicas e mentais desejáveis. Muitos são descartados e os restantes são geneticamente modificados de acordo com as especificações da sociedade e dos pais.
Para sua desventura, o herói do filme, Vincent (xará do pintor holandês van Gogh, o que não é uma coincidência, como veremos mais abaixo), foi resultado de um ato de amor, ao invés de ser concebido em proveta. Ainda na sala de parto, um teste de DNA mostra que ele tem uma probabilidade de 99% de desenvolver um problema cardíaco e morrer antes dos 30 anos. Vincent passa a vida lutando contra esse sombrio "destino genético" e burlando o sistema, que não permite que indivíduos "defeituosos" como ele se tornem astronautas.
Não contarei o resto do filme para não estragar o divertimento de quem deseje vê-lo (aliás, recomendo-o entusiasticamente). De qualquer maneira, quando os pais de Vincent planejam uma nova gravidez, abrem mão do amor e optam por um bebê à la carte como todos os outros daquela sociedade. Quão viável é esse cenário Gattaca ?
Quem diz "isto é impossível" com relação a avanços tecnológicos quase sempre vai dar com os burros n'água e ainda corre o risco de fazer papel de bobo. Mesmo assim vou me arriscar e prognosticar que o cenário Gattaca não é possível agora e nunca o será. Logo, logo, vou explicar por que me atrevo a fazer uma afirmativa tão contundente. Mas antes temos de revisar alguns princípios fundamentais da genética.
Genótipo e fenótipo
O botânico dinamarquês Wilhelm Ludvig Johannsen (1857-1927) foi um grande inovador de palavras e conceitos. Em 1909, ele inventou o termo gene, a partir do grego, "que dá nascimento a". No mesmo ano, ele introduziu dois conceitos fundamentais, o de genótipo – o conjunto estático de genes de um indivíduo - e o de fenótipo – o conjunto dinâmico de suas características observáveis. Essa distinção é fundamental para a compreensão de fenômenos genéticos.
Intervindo entre o genótipo e o fenótipo há os processos de desenvolvimento embrionário, fetal e pós-natal, que recebem amplas influências do ambiente. Muitas vezes diferenças genotípicas não se manifestam como diferenças fenotípicas. Isso se deve à existência tanto de redundância quanto de homeostase no sistema. O grande biólogo escocês Conrad Waddington (1905-1975) foi o primeiro a propor a noção de que alguns aspectos do desenvolvimento embrionário são "canalizados" (no sentido de oferecer resistência a desvios), um tópico que abordaremos em uma de nossas colunas futuras.
O reverso também é verdadeiro, ou seja, o mesmo genótipo pode levar a diferentes fenótipos, dependendo do ambiente. Foi bem colocado pelo famoso evolucionista Theodosius Dobzhansky (1900-1975), em seu maravilhoso livro de 1956 poeticamente intitulado As bases biológicas da liberdade humana , que todas as características e qualidades humanas resultam da interação da hereditariedade com uma sucessão de ambientes no processo de viver.
Assim, o fenótipo de uma pessoa em um dado momento é determinado por seu genótipo e pela sua história de vida. Isso pode parecer o óbvio ululante, mas o que freqüentemente não é entendido é que os efeitos do genótipo e do ambiente não são meramente aditivos. Na realidade, eles interagem de uma maneira bem complicada.
A interação gene-ambiente
Experimento de J. Clausen, D.D. Keck e W.M. Heisey, do Carnegie Institute em Washington, com a planta Achillea (mil-folhas). Sete clones diferentes foram cultivados em três altitudes distintas (chamadas Stanford, Mather e Timberline) na Califórnia. As plantas de cada coluna têm genótipos idênticos (são clones), mas as plantas de colunas distintas têm genótipos diversos; cada linha representa uma altitude específica. Observe que o mesmo genótipo reage de maneira diferente à altura e produz fenótipos bem díspares e que as "normas de reação" são diferentes para genótipos distintos.
Imaginemos dois estudantes, João e Pedro, em uma escola de má qualidade, com João tendo melhor aproveitamento e melhores notas que Pedro. Se os dois forem transferidos para uma boa escola, a tendência das pessoas é esperar que ambos melhorem o nível do aprendizado, mas que João continue a ter melhor desempenho. Esta é a falácia do pensamento linear.
A complexidade da interatividade entre genótipo e ambiente foi cogentemente demonstrada em experimentos clássicos de botânica nas décadas de 1940 e 1950 por J. Clausen, D.D. Keck e W.M. Heisey , do Carnegie Institute em Washington. Vejamos como foi o experimento deles.
Sete clones de diferentes espécimes da planta Achillea (mil-folhas) foram cultivados em três altitudes distintas (chamadas Stanford, Mather e Timberline) na Califórnia, como mostra a figura ao lado. As plantas de cada coluna têm genótipos idênticos (são clones) e as linhas horizontais representam as altitudes diferentes em que cresceram. Uma simples inspeção mostra em cada coluna que o mesmo genótipo condicionou fenótipos bem díspares dependendo da altitude, ou seja, o mesmo genótipo reagiu de maneira diferente às variáveis ambientais.
Mas as reações não são as mesmas para os genótipos distintos. Em outras palavras, cada genótipo determina uma "norma de reação" diferente. Por exemplo, o primeiro clone à esquerda (3971-4) cresce bem nas altitudes de Stanford e Timberline, mas mal na altura intermediária de Mather. Já o quarto clone da esquerda para a direita (24) cresce muito melhor em Mather do que nas outras duas altitudes.
Quais as conclusões desse estudo? Primeiro e mais importante: não existe um genótipo "melhor"!!! Conceitos de valor não podem ser aplicados a genótipos sem especificação do ambiente. Ou seja, um genótipo é bom ou ruim dependendo do ambiente; um ambiente é bom ou ruim dependendo do genótipo. A interação dos dois é íntima, complexa e não-linear. Relembrando o exemplo anterior, ao mudar de escola, Pedro pode se tornar um aluno muito melhor que João. O efeito do binômio gene/ambiente sobre a dinâmica fenotípica é imprevisível.
Para complicar, além do genótipo e do ambiente, há uma terceira variável: a contingência . Certamente a variação estocástica é parte intrínseca dos processos de desenvolvimento e sua importância vai depender de quão "canalizados" eles são.
Nenhum gene é uma ilha
O embrião do genial pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), afetado com a picnodisostose, uma forma autossômica recessiva de baixa estatura, não seria considerado viável no cenário Gattaca .
Voltemos ao filme Gattaca . No planejamento das características psíquicas e comportamentais dos bebês, os geneticistas simplesmente não saberiam qual genótipo "engenheirar", simplesmente porque nunca poderiam prever a norma de reação com relação a todos os ambientes futuros que aquela criança encontrará em sua vida. Daí a minha certeza de que o cenário Gattaca jamais se concretizará. E será possível no futuro a eliminação de características indesejáveis tais como tendências criminais, predisposições à dependência de drogas, distúrbios de comportamento e outros?
Não. Esta é outra idéia falaciosa, tendo os defeitos de simultaneamente hipervalorizar e hipersimplificar o papel do componente genético. De certa maneira, a falácia resulta das metáforas corriqueiramente usadas com relação à genética. Por exemplo, fala-se no "gene para a inteligência". Mas, se pensarmos por um minuto, veremos que não há "um gene" para a inteligência!
Para que um indivíduo tenha alta inteligência (aliás, algo difícil de se definir), é necessário primeiro que ele tenha um sistema nervoso central formado pela interação do conjunto de todos os seus genes com o ambiente durante o processo de desenvolvimento embrionário. Além disso, o indivíduo terá de sobreviver aos riscos da infância, ter certa saúde e ser educado em um meio propício.
Ninguém herda um "gene da inteligência", mas um genótipo que, como um todo, condiciona um certo nível de inteligência em complexa interação com o ambiente. Parafraseando o poeta renascentista inglês John Donne (1572-1631), podemos dizer que "nenhum gene é uma ilha". Como já alertava Dobzhansky, não herdamos vícios, gostos, desgostos ou comportamentos. Simplesmente herdamos uma constelação de genes, o genótipo.
Analogamente, não podemos nos esquecer de que o ser humano é um todo e não a soma de partes que possam ser modificadas independentemente umas das outras. A mesma característica pode ser qualidade ou defeito, dependendo do contexto. Um indivíduo agressivamente competitivo pode ser de difícil convivência, mas essas mesmas características o tornam um homem de negócios brilhante ou um esportista de sucesso. A violência de Rambo o fez um super-herói no Vietnã, mas inadequado para a vida civil nos Estados Unidos.
O famoso quadro Noite estrelada , do pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890), que sofria de esquizofrenia.
Assim, mesmo que pudéssemos, não deveríamos tentar fazer uma seleção pré-natal de embriões, exceto em casos de doenças graves e incuráveis que possam comprometer radicalmente a qualidade de vida do indivíduo. Deveríamos descartar o embrião do genial pintor francês Toulouse-Lautrec porque ele era portador de uma forma autossômica recessiva de nanismo, chamada picnodisostose? Ou eliminar o embrião de Wolfgang Amadeus Mozart porque seu genoma continha genes possivelmente relacionados com um distúrbio de comportamento hoje conhecido como síndrome de Gilles de la Tourette?
Mozart era um gênio apesar de seu distúrbio de personalidade, ou seria sua genialidade uma faceta desse distúrbio? Beethoven compôs a nona sinfonia apesar de sua surdez ou porque era surdo? Vincent van Gogh pintou o seu maravilhoso Céu estrelado apesar da esquizofrenia ou justamente por causa dela? Como ficaria a criatividade de uma sociedade Gattaca de pequenos burgueses, sadios e contentes em sua mediocridade?
Bebês à la carte ? Não, obrigado, prefiro a surpresa do chef !
Sergio Danilo Pena
Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais
08/12/2006
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Graças a Deus o Brasil não é São Paulo
Graças a Deus o Brasil não é São Paulo !
A “Onda “ Kassab e a classe média paulistana.
Uma Nova Velha História.
“(...) O indivíduo completo é aquele que tem capacidade de entender o mundo, sua situação no mundo e que, se ainda não é cidadão , sabe o que poderiam ser os seus direitos.
É neste sentido que me pergunto se a classe média é formada de cidadãos. Eu digo que não. Em todo caso, no Brasil não o é, porque não é preocupada com direitos, mas com privilégios. O processo de desnaturação da democracia amplia a prerrogativa da classe média, ao preço de impedir a difusão de direitos fundamentais para a totalidade da população. E o fato da classe média gozar de privilégios, não de direitos, que impede aos outros brasileiros ter direitos.É por isso que no Brasil não há cidadãos. Há os que não querem ser cidadãos, que são as classes médias, e há os que não podem ser cidadãos, que são todos os demais, a começar pelos negros que não são cidadãos. Digo-o por ciência própria. (...) “
Milton Santos
De novo a cidade de São Paulo nos presenteia com sua tradição política conservadora.
No momento em que qualquer pessoa minimamente informada e bem intencionada comemora o ‘funeral’ nacional do PFL, agora disfarçado ou travestido de DEM ( Democratas, belo nome pra justamente eles que foram a base de sustentação da Ditadura Fascista de 64) derrotado até na Bahia terra de seu ícone ACM – justamente em São Paulo a maior cidade do Hemisfério Sul vergonhosamente representa a grande esperança de sobrevivência do partido que é a cara do Coronelismo do Sertão, do atraso, dos Generais, da antiga UDN, etc.
Especialmente na cidade de São Paulo esse ‘ideal’ se é que podemos chamá-lo assim , importado de Portugal Medieval, aqui ‘adaptado’ pelos Bandeirantes ( Bandoleiros e Assassinos fundadores da sociedade mais violenta do planeta ) e “aperfeiçoado” pelos Barões do café – ( Jecas Aristocráticos metidos a Europeus que enriqueceram esfolando escravos e imigrantes e condenando o país a um atraso secular)
Este mesmo ‘ideal’ ressurge e sobrevive sistematicamente na cidade de São Paulo,por vezes de forma inacreditável em jovens e em pobres – que se pensam classe média e reproduzem sem saber ou mesmo com convicção – argumentos reeditados de seus avós ou bisavós que outrora votaram em Carlos Lacerda, Jânio, Ademar de Barros e saíram as ruas com “Deus, a Família e etc...” Renasce novamente e de novo se afirma “orgulhosamente’ : avesso à política. Mas são os mesmos de sempre que não perdem uma oportunidade de elegerem Maluf, Collor, Pitta e agora Kassab.
Esta História (ou farsa ?) é monótona em sua estranha fixação de sempre andar para trás.
Como também é monótona a ‘ladainha’ de seus argumentos propagados por pólos de excelência : tipo Revista Veja, Caras, e por aí vai.
Argumentos que sempre objetivam uma única e sagrada garantia : que no final das contas nada mude nem um milímetro !!!
E talvez aí resida a alma desta herança maldita : o Medo !
No fundo parece que esta ‘tacanhice’ crônica nasce mesmo do medo daquilo que não conhecemos ou por profunda ignorância não queremos conhecer.E se há uma coisa que praticamente nunca existiu no Brasil – o país onde a escravidão foi (ou é ??) a instituição mais importante de toda a sua história – essa ‘coisa’ assustadora se chama solidariedade. Daí esse modelo de ‘civilidade’ anti-social onde nossa classe média é especialista e o maior objetivo de votar em Kassab assim como votou em Serra : manter a periferia como sempre esteve (EXCLUÍDA).
Num mundo que cada vez mais se torna analfabeto, o analfabetismo ‘espiritual’ desta cidade chega a impressionar.
A história também mostra o que uma classe média tacanha é capaz.
É claro que exemplo maior é o Nazismo Alemão, onde uma classe média egoísta, ambiciosa, assustada, medrosa e ignorante foi a principal responsável pelo ascensão de Hiltler e seu “ideal” também conservador.
Nossa classe média, penso, é de fato muito parecida. Vemos o preconceito como seu traço principal. Mas, muito mais forte que isso é o seu desejo de receber ordens.( Atualmente Universidades, que já foram centros de excelência, recorrem a reuniões de pais e pedagogia infantil para educar jovens de classe média ‘geração Malhação ou pós Xuxa’) Este grupo parece desejar ardentemente ordens : seja de um deus, de um patrão, de um governo, ou especialmente daquele que ela mais respeita e teme : a mídia.
Como uma criança que não quer crescer , tudo que ela sonha é com um “pai’ autoritário que lhe diga o que é certo e retire o insuportável peso de ter de assumir reponsabilidades assim como fazem as marcas, as ‘tendências” da moda, as ‘griffes’ que tanto são obedecidas.
Essa mesma classe média que cotidianamente nos brinda com exemplos de sua ‘civilidade’ em reuniões de condomínio, clubes, escolas, universidades
e no espaço público em geral, é a mesma que se exprime politicamente agora.
Adestrada em sua profunda despolitização pelos novos sábios do mundo corporativo com os maravilhosos ‘ideais’ arrivistas, egoístas e narcisistas sacralizados pela sua nova religião individualista : a propaganda.
É ela que agora reafirma seu jeito de ser.
Como uma nova tecnologia de celular ou computador, ela agora “embarca” de cabeça na “onda” Kassab.
Assim como, por medo que alguma coisa mudasse, em segundos escolheu e entregou o país nas mãos do Collor em 89 e depois não assumiu sua irresponsabilidade e leviandade. Assim como não satisfeita com Maluf elegeu Pitta e nós todos pagamos esta conta. Assim como daqui alguns dias fará com seu celular.É esta mesmo que ,outra vez rapidamente irá negar ter votado em Kassab, inflar o peito e repetir orgulhosa ; “ Eu odeio política !!’”
Hoje, nossa classe média,eternamente ávida por salvadores da pátria ( Um novo D Sebastião !) engole, assim como faz com seus fast-foods, sem mastigar o novo lançamento do mercado : Kassab !
É impressionante a forma semelhante com isso se dá.
Kassab em menos de um mês ultrapassou Maluf, Alckmin e Marta e desponta como favorito.
Não lembra o Collor? Que saiu do esgoto, como um rato, aparentemente sem apoio e de uma hora pra outra virou um fenômeno eleitoral especialmente em SP ? Estranho né?
Não lembra o Pitta ? Um candidato fabricado na Eucatex. Que era um ninguém e num instante virou também prefeito de São Paulo.
Coincidência?
Aliás Pitta a quem Kassab serviu !
Seria engraçado se não fosse trágico.
Os argumentos parecem ser sempre os mesmos. Quer ver :
1º “Ele” é uma pessoa nova ! Representa mudança !
(seu currículo já era !)
2º “Ele” não atacou ninguém !
( apesar de não ser a verdade, já está santificado)
3º ‘Ele’ está fazendo coisas que outros não fizeram!
(Dá-lhe mentiras e marketing !!)
Aliás deve ser fácil ser marketeiro em SP. É só reproduzir o mesmo discurso e pronto. Assim com nas novelas, no Faustão, no Malhação, no programa da Hebe, no cinema norte-americano que a classe média tanto gosta. Tudo sempre igual ! Haja monotonia !
Ah, mas tem de disfarçar um pouco, como fez o PFL : mudar o nome, o número e a cor do partido e pronto Então, você, assim como prometem os maravilhosos e qualificados programas femininos da TV - se transformará em uma nova pessoa ! Não é fantástico ?
A psicanálise há muito conhece bem estes ‘mecanismos de defesa’, mas para que qualquer neurose seja superada é necessário que o paciente reconheça sua condição. Exatamente o mais difícil pra essa gente, pois exige aquilo que mais lhe falta : personalidade.
Ahh, por falar em personalidade. Cadê os eleitores do PSDB ?? Hein ??
O que aconteceu com o Alckmin ?? Até agora pouco ele não era o frisson de nossa classe média ? O candidato mais maravilhoso. O anti-Lula ! O próximo presidente.
Se com seus ‘aliados’,já na campanha eles fazem assim, imagine com a cidade.
Boa Sorte São Paulo
São Paulo e sua Indignação Seletiva
Parecem ser, no mínimo, interessantes algumas reações acerca das insinuações a respeito da sexualidade do candidato Kassab veiculadas pela campanha da Marta .
Que o campo da pessoalidade não é, ou pelo menos não deveria ser objeto de ataques com fins eleitoreiros ou políticos não se discute, - mas creio que este episódio nos oferece oportunidade especial para perceber como a lógica do preconceito e da maldade opera nesta cidade especialmente, de novo, em nossa classe média. E naqueles, “educados” por ela, que reproduzem seu ponto de vista.
Inacreditável como este grupo tem a capacidade de se indignar de forma seletiva, ou seria cínica?
Esta mesma classe média que agora posa de : “profundamente indignada” e zeloza dos mais altos valores da dignidade humana e defensora dos direitos individuais, não se lembrou de demonstrar nenhuma indignação quando Collor covardemente , da forma mais torpe possível , comprou com alguns trocados uma ex-namorada de Lula para agredi-lo na campanha de 89.
Também nunca demonstrou tais valores sublimes quando, usando do mais maldoso sexismo e racismo atacou Luiza Erundina durante todo o seu mandato na mesma Prefeitura agora em questão. Não lhe perdoando por ser, ao mesmo tempo : - Mulher, Nordestina e Socialista.
Engraçado não ?
Assim como, reproduzindo seu “Guru” preferido Maluf, - atacou sempre a mesma Marta – ( “ A Dona Marta do PT” ) também por sua condição de mulher, que possui personalidade, envolvida com questões sociais e com mais um agravante : separada do marido.
São inúmeras as passagens em que, estes mesmos agora ‘indignados’ com o que houve com Kassab, se deleitaram e ainda agora continuam com ofensas, agressões e calúnias que rebaixam a moral, a dignidade,a auto-estima e a humanidade de muita gente. É só prestar atenção nas conversas cotidianas em nossa cidade.
É claro que um erro não justifica sua continuação, mas tal ‘seletividade’ que é no mínimo surreal, nos faz pensar na capacidade de adaptação que possui esta lógica de preconceito e cinismo - mas é muito interessante assistirmos agora esta classe média – que é “Pós-Graduada” em preconceito ficar revoltada e indignada por seu candidato ter sido alvo de maldade.
Ela mesma que alegava ter votado em Collor por – ‘elle’ - falar vários idiomas e assim ter mais condição de representar bem o Brasil frente aos gringos – contra o ‘analfabeto’ Lula - - A mesma que ‘ baba o ovo’ de Maluf por ele ser Engenheiro – ou seja por possuir um título- aliás historicamente neste país – até bem pouco tempo, privilégio de filhos bem criados de aristocratas que podiam estudar em Coimbra, Sorbonne, etc – título que muitas vezes se converteu no imaginário popular como uma espécie de salvo conduto para vigarice.
Talvez este raciocínio, pra essa gente - não se encaixe nos inúmeros bandidos de colarinho branco , muito bem diplomados – como Daniel Dantas, Lalau, Collor, Maluf, Naji Nahas e Pitta, - amigos íntimos você sabe muito bem de quem.
Todos diplomados com títulos acadêmicos, mas conhecidos menos por seus títulos do que por suas fichas corridas e – apesar de não mais algemados – também por suas constantes aparições em capas de páginas policiais.
Apesar de grotesco isto tudo não é novo, - por exemplo no final do Séc. XVIII no Haiti, as notícias da chegada das transformações revolucionárias ocorridas na França, onde se falava em - “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” - não representaram absolutamente nenhuma concessão aos centenas de milhares de escravos que ali davam suas vidas para o enriquecimento da burguesia francesa.
È impressionante como é possível um ser humano se indignar assim seletivamente.
Da mesma forma que alguns estrangeiros estranham e não entendem como nós brasileiros nos acostumamos com nossa miséria e com a situação social mais injusta do planeta e condenamos nossos milhões de miseráveis a ’invisibilidade social’, - os franceses do Séc XVIII também conseguiram conviver ao mesmo tempo com os tão belos e ‘iluminados’ ideais de “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” sem tocar na questão da propriedade e assim manter suas ‘propriedades’,ou “peças” como se chamavam por aqui os escravos, intocados em seu flagelo.
Parece que muita gente em São Paulo faz o mesmo. Fica ‘indignada’ quando lhe convém.
Parece também, que de forma surreal e sádica o maior preconceito que há no Brasil : a pobreza, - é justamente aquele que é mais pesadamente condenado a maior invisibilidade.
Apesar das festejadas e hipócritas ‘permissões’ que esta sociedade conservadora parece conceder agora - por exemplo permitindo maior visibilidade aos homossexuais, - há a inegável permanência daquilo que lhe é verdadeiramente “sagrado” e intocável : a manutenção da injustiça social e a exclusão de milhões.
Isso sim é sensível. E, de verdade o que realmente incomoda a eles nesta eleição.
Pensando ainda o caso do percurso feito pelos homossexuais, especialmente em São Paulo, - lugar das maiores manifestações públicas deste grupo, - parece ser bastante significativo como a lógica do preconceito opera e apesar de se revestir de ‘moderno’ mantém com uma tranqüilidade, quase que total, - sua capacidade de resistir fazendo como sempre fez : isolando o particular do geral, alienando uma coisa da outra para melhor administrar e confundir - e assim manter as mudanças – quase sempre cosméticas - sob seu controle.
Assim, se pensarmos no teor que movimentaram ações públicas de grupos imensamente numerosos nesta cidade nas últimas décadas, vamos ver uma nítida predominância de dois grandes grupos : Gays e Evangélicos.
São eles e ninguém mais que conseguem, seja lá por quais razões, movimentarem milhões de adeptos em suas manifestações.
O que eles parecem ter em comum ?
Aparentemente, nada certo ? Errado.
Chega a ser engraçado, em alguns momentos, as semelhanças dos discursos.
Tanto os gays quanto os evangélicos, - especialmente pentecostais, - parecem ter uma fixação muito clara em seus discursos : a questão do consumo.
Num país com, ainda, milhões de miseráveis, completamente excluídos de qualquer acesso a algo que não seja sua sobrevivência - é no mínimo estranho que tanta gente não perceba o tamanho desta contradição.
Não há uma só declaração destes grupos onde o consumismo como valor supremo não fique patente.
Para uns, a manifestação é claramente uma celebração de um tipo de fé específico – assim como são as marcas de roupa, de automóveis ou de celulares – Fé que possui o poder de tornar seus discípulos ‘escolhidos’ e assim aptos a entrarem no maravilhoso reino..... dos céus ? - Não..... - no reino do consumo.
- “Com Jesus de fiador poderei comprar, possuir, ter, realizar negócios, etc”
Se tornar fiel parece ser pressuposto para a obtenção de um nível de consumo e os programas da TV mostram as realizações divinas através das marcas de sucesso num grande pastiche de espiritualidade misturada com aumento do poder aquisitivo, gente com roupa bonita, carros de luxo, champagne , etc . Tudo sob as bênçãos de um Jesus que – por vezes mais parece um ótimo corretor de valores.
Enquanto isso o outro grupo também parece definir de forma absoluta a condição homossexual como, também prioritariamente sinônimo de consumo.
Toda parada gay, ano após ano - monotonamente nos entope de declarações por toda a mídia :
“O Gay é um consumidor, vai trazer não sei quantos milhares de dólares pra São Paulo, vão lotar os hotéis, vão encher os bares, blá, blá, bla, ...”
Aparentemente pedindo ‘desculpas ‘ por ocupar o espaço público, os gays parecem necessitar ‘agradar’ os que realmente mandam e assim – consciente ou inconsciente ? – Reproduzem seu maior ‘valor’ de classe : o ódio aos pobres sugerindo implicitamente, que os gays são fundamentalmente diferente dos pobres.
Parece que nos dois grupos o slogan subtextual que revela o valor fundamental dos movimentos é : “Seja gay ou evangélico e torne-se um consumidor.”
E é exatamente aí, a meu ver, que reside o centro da questão
Parece que, infelizmente, por baixo de uma grande capa de hipocrisia há uma forte gritaria de reforço aos piores ‘tesouros’ herdados de séculos de história de nossa tão presente barbárie social. Aparentemente o que vemos é o mais nojento e secular preconceito colonial resistindo ao longo dos tempos – e ao invés de, este sim, causar indignação : causa euforia em nossos ‘descolados’ e ‘modernos’ membros das novas tendências.
Infelizmente na nossa Democracia ainda parece sobreviver, mais vivo que nunca, o “curto-circuito” que falava Florestan Fernandes e cristalizado o espírito do escravismo colonial tão bem descrito por Jacob Gorender.
No imaginário delirante e decadente da classe média paulistana e de seus deslumbrados serviçais agregados – a indignação passa obrigatoriamente por um filtro bem estreito. Filtro obviamente muito bem construído diariamente por seus catecismos oficiais : Revista Veja, Globo, Caras, etc. Fiéis guardiões da mais sagrada instituição : a manutenção do Status Quo.
Engraçado, ainda, que este mesmo grupo – que agora se mostra tão cheio de valores elevados - não perde uma única oportunidade de demonstrar seu ódio as políticas sociais. Usando de argumentos que - por vezes - fariam Hitler se sentir representado - eles nos inundam com sua resistência a qualquer ação para assistir os milhões de miseráveis que eles mesmo ajudaram a criar. Repetindo sempre os mesmos argumentos tacanhos e idiotas de apontar os excluídos e super explorados como únicos culpados de sua situação de miséria social e política fazendo todo o possível para desmontar qualquer ação que leve a alguma transformação disto.
Essa mesma gente se esquece que, assim como fez Roosevelt no New Deal- e por imensa ironia - agora Bush - quando um país preserva e aumenta o poder de consumo de sua população com um todo - todos ganham e ao contrário – como sonham nossos ‘iluminados’ ao manter milhões de super explorados e excluídos quem perdem não são só eles.
Ahh, mas isso não acontece por aqui. Não é mesmo ?
Aqui - Nós ficamos indignados, - mas sempre nos contentamos com pouco !!
A “Onda “ Kassab e a classe média paulistana.
Uma Nova Velha História.
“(...) O indivíduo completo é aquele que tem capacidade de entender o mundo, sua situação no mundo e que, se ainda não é cidadão , sabe o que poderiam ser os seus direitos.
É neste sentido que me pergunto se a classe média é formada de cidadãos. Eu digo que não. Em todo caso, no Brasil não o é, porque não é preocupada com direitos, mas com privilégios. O processo de desnaturação da democracia amplia a prerrogativa da classe média, ao preço de impedir a difusão de direitos fundamentais para a totalidade da população. E o fato da classe média gozar de privilégios, não de direitos, que impede aos outros brasileiros ter direitos.É por isso que no Brasil não há cidadãos. Há os que não querem ser cidadãos, que são as classes médias, e há os que não podem ser cidadãos, que são todos os demais, a começar pelos negros que não são cidadãos. Digo-o por ciência própria. (...) “
Milton Santos
De novo a cidade de São Paulo nos presenteia com sua tradição política conservadora.
No momento em que qualquer pessoa minimamente informada e bem intencionada comemora o ‘funeral’ nacional do PFL, agora disfarçado ou travestido de DEM ( Democratas, belo nome pra justamente eles que foram a base de sustentação da Ditadura Fascista de 64) derrotado até na Bahia terra de seu ícone ACM – justamente em São Paulo a maior cidade do Hemisfério Sul vergonhosamente representa a grande esperança de sobrevivência do partido que é a cara do Coronelismo do Sertão, do atraso, dos Generais, da antiga UDN, etc.
Especialmente na cidade de São Paulo esse ‘ideal’ se é que podemos chamá-lo assim , importado de Portugal Medieval, aqui ‘adaptado’ pelos Bandeirantes ( Bandoleiros e Assassinos fundadores da sociedade mais violenta do planeta ) e “aperfeiçoado” pelos Barões do café – ( Jecas Aristocráticos metidos a Europeus que enriqueceram esfolando escravos e imigrantes e condenando o país a um atraso secular)
Este mesmo ‘ideal’ ressurge e sobrevive sistematicamente na cidade de São Paulo,por vezes de forma inacreditável em jovens e em pobres – que se pensam classe média e reproduzem sem saber ou mesmo com convicção – argumentos reeditados de seus avós ou bisavós que outrora votaram em Carlos Lacerda, Jânio, Ademar de Barros e saíram as ruas com “Deus, a Família e etc...” Renasce novamente e de novo se afirma “orgulhosamente’ : avesso à política. Mas são os mesmos de sempre que não perdem uma oportunidade de elegerem Maluf, Collor, Pitta e agora Kassab.
Esta História (ou farsa ?) é monótona em sua estranha fixação de sempre andar para trás.
Como também é monótona a ‘ladainha’ de seus argumentos propagados por pólos de excelência : tipo Revista Veja, Caras, e por aí vai.
Argumentos que sempre objetivam uma única e sagrada garantia : que no final das contas nada mude nem um milímetro !!!
E talvez aí resida a alma desta herança maldita : o Medo !
No fundo parece que esta ‘tacanhice’ crônica nasce mesmo do medo daquilo que não conhecemos ou por profunda ignorância não queremos conhecer.E se há uma coisa que praticamente nunca existiu no Brasil – o país onde a escravidão foi (ou é ??) a instituição mais importante de toda a sua história – essa ‘coisa’ assustadora se chama solidariedade. Daí esse modelo de ‘civilidade’ anti-social onde nossa classe média é especialista e o maior objetivo de votar em Kassab assim como votou em Serra : manter a periferia como sempre esteve (EXCLUÍDA).
Num mundo que cada vez mais se torna analfabeto, o analfabetismo ‘espiritual’ desta cidade chega a impressionar.
A história também mostra o que uma classe média tacanha é capaz.
É claro que exemplo maior é o Nazismo Alemão, onde uma classe média egoísta, ambiciosa, assustada, medrosa e ignorante foi a principal responsável pelo ascensão de Hiltler e seu “ideal” também conservador.
Nossa classe média, penso, é de fato muito parecida. Vemos o preconceito como seu traço principal. Mas, muito mais forte que isso é o seu desejo de receber ordens.( Atualmente Universidades, que já foram centros de excelência, recorrem a reuniões de pais e pedagogia infantil para educar jovens de classe média ‘geração Malhação ou pós Xuxa’) Este grupo parece desejar ardentemente ordens : seja de um deus, de um patrão, de um governo, ou especialmente daquele que ela mais respeita e teme : a mídia.
Como uma criança que não quer crescer , tudo que ela sonha é com um “pai’ autoritário que lhe diga o que é certo e retire o insuportável peso de ter de assumir reponsabilidades assim como fazem as marcas, as ‘tendências” da moda, as ‘griffes’ que tanto são obedecidas.
Essa mesma classe média que cotidianamente nos brinda com exemplos de sua ‘civilidade’ em reuniões de condomínio, clubes, escolas, universidades
e no espaço público em geral, é a mesma que se exprime politicamente agora.
Adestrada em sua profunda despolitização pelos novos sábios do mundo corporativo com os maravilhosos ‘ideais’ arrivistas, egoístas e narcisistas sacralizados pela sua nova religião individualista : a propaganda.
É ela que agora reafirma seu jeito de ser.
Como uma nova tecnologia de celular ou computador, ela agora “embarca” de cabeça na “onda” Kassab.
Assim como, por medo que alguma coisa mudasse, em segundos escolheu e entregou o país nas mãos do Collor em 89 e depois não assumiu sua irresponsabilidade e leviandade. Assim como não satisfeita com Maluf elegeu Pitta e nós todos pagamos esta conta. Assim como daqui alguns dias fará com seu celular.É esta mesmo que ,outra vez rapidamente irá negar ter votado em Kassab, inflar o peito e repetir orgulhosa ; “ Eu odeio política !!’”
Hoje, nossa classe média,eternamente ávida por salvadores da pátria ( Um novo D Sebastião !) engole, assim como faz com seus fast-foods, sem mastigar o novo lançamento do mercado : Kassab !
É impressionante a forma semelhante com isso se dá.
Kassab em menos de um mês ultrapassou Maluf, Alckmin e Marta e desponta como favorito.
Não lembra o Collor? Que saiu do esgoto, como um rato, aparentemente sem apoio e de uma hora pra outra virou um fenômeno eleitoral especialmente em SP ? Estranho né?
Não lembra o Pitta ? Um candidato fabricado na Eucatex. Que era um ninguém e num instante virou também prefeito de São Paulo.
Coincidência?
Aliás Pitta a quem Kassab serviu !
Seria engraçado se não fosse trágico.
Os argumentos parecem ser sempre os mesmos. Quer ver :
1º “Ele” é uma pessoa nova ! Representa mudança !
(seu currículo já era !)
2º “Ele” não atacou ninguém !
( apesar de não ser a verdade, já está santificado)
3º ‘Ele’ está fazendo coisas que outros não fizeram!
(Dá-lhe mentiras e marketing !!)
Aliás deve ser fácil ser marketeiro em SP. É só reproduzir o mesmo discurso e pronto. Assim com nas novelas, no Faustão, no Malhação, no programa da Hebe, no cinema norte-americano que a classe média tanto gosta. Tudo sempre igual ! Haja monotonia !
Ah, mas tem de disfarçar um pouco, como fez o PFL : mudar o nome, o número e a cor do partido e pronto Então, você, assim como prometem os maravilhosos e qualificados programas femininos da TV - se transformará em uma nova pessoa ! Não é fantástico ?
A psicanálise há muito conhece bem estes ‘mecanismos de defesa’, mas para que qualquer neurose seja superada é necessário que o paciente reconheça sua condição. Exatamente o mais difícil pra essa gente, pois exige aquilo que mais lhe falta : personalidade.
Ahh, por falar em personalidade. Cadê os eleitores do PSDB ?? Hein ??
O que aconteceu com o Alckmin ?? Até agora pouco ele não era o frisson de nossa classe média ? O candidato mais maravilhoso. O anti-Lula ! O próximo presidente.
Se com seus ‘aliados’,já na campanha eles fazem assim, imagine com a cidade.
Boa Sorte São Paulo
São Paulo e sua Indignação Seletiva
Parecem ser, no mínimo, interessantes algumas reações acerca das insinuações a respeito da sexualidade do candidato Kassab veiculadas pela campanha da Marta .
Que o campo da pessoalidade não é, ou pelo menos não deveria ser objeto de ataques com fins eleitoreiros ou políticos não se discute, - mas creio que este episódio nos oferece oportunidade especial para perceber como a lógica do preconceito e da maldade opera nesta cidade especialmente, de novo, em nossa classe média. E naqueles, “educados” por ela, que reproduzem seu ponto de vista.
Inacreditável como este grupo tem a capacidade de se indignar de forma seletiva, ou seria cínica?
Esta mesma classe média que agora posa de : “profundamente indignada” e zeloza dos mais altos valores da dignidade humana e defensora dos direitos individuais, não se lembrou de demonstrar nenhuma indignação quando Collor covardemente , da forma mais torpe possível , comprou com alguns trocados uma ex-namorada de Lula para agredi-lo na campanha de 89.
Também nunca demonstrou tais valores sublimes quando, usando do mais maldoso sexismo e racismo atacou Luiza Erundina durante todo o seu mandato na mesma Prefeitura agora em questão. Não lhe perdoando por ser, ao mesmo tempo : - Mulher, Nordestina e Socialista.
Engraçado não ?
Assim como, reproduzindo seu “Guru” preferido Maluf, - atacou sempre a mesma Marta – ( “ A Dona Marta do PT” ) também por sua condição de mulher, que possui personalidade, envolvida com questões sociais e com mais um agravante : separada do marido.
São inúmeras as passagens em que, estes mesmos agora ‘indignados’ com o que houve com Kassab, se deleitaram e ainda agora continuam com ofensas, agressões e calúnias que rebaixam a moral, a dignidade,a auto-estima e a humanidade de muita gente. É só prestar atenção nas conversas cotidianas em nossa cidade.
É claro que um erro não justifica sua continuação, mas tal ‘seletividade’ que é no mínimo surreal, nos faz pensar na capacidade de adaptação que possui esta lógica de preconceito e cinismo - mas é muito interessante assistirmos agora esta classe média – que é “Pós-Graduada” em preconceito ficar revoltada e indignada por seu candidato ter sido alvo de maldade.
Ela mesma que alegava ter votado em Collor por – ‘elle’ - falar vários idiomas e assim ter mais condição de representar bem o Brasil frente aos gringos – contra o ‘analfabeto’ Lula - - A mesma que ‘ baba o ovo’ de Maluf por ele ser Engenheiro – ou seja por possuir um título- aliás historicamente neste país – até bem pouco tempo, privilégio de filhos bem criados de aristocratas que podiam estudar em Coimbra, Sorbonne, etc – título que muitas vezes se converteu no imaginário popular como uma espécie de salvo conduto para vigarice.
Talvez este raciocínio, pra essa gente - não se encaixe nos inúmeros bandidos de colarinho branco , muito bem diplomados – como Daniel Dantas, Lalau, Collor, Maluf, Naji Nahas e Pitta, - amigos íntimos você sabe muito bem de quem.
Todos diplomados com títulos acadêmicos, mas conhecidos menos por seus títulos do que por suas fichas corridas e – apesar de não mais algemados – também por suas constantes aparições em capas de páginas policiais.
Apesar de grotesco isto tudo não é novo, - por exemplo no final do Séc. XVIII no Haiti, as notícias da chegada das transformações revolucionárias ocorridas na França, onde se falava em - “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” - não representaram absolutamente nenhuma concessão aos centenas de milhares de escravos que ali davam suas vidas para o enriquecimento da burguesia francesa.
È impressionante como é possível um ser humano se indignar assim seletivamente.
Da mesma forma que alguns estrangeiros estranham e não entendem como nós brasileiros nos acostumamos com nossa miséria e com a situação social mais injusta do planeta e condenamos nossos milhões de miseráveis a ’invisibilidade social’, - os franceses do Séc XVIII também conseguiram conviver ao mesmo tempo com os tão belos e ‘iluminados’ ideais de “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” sem tocar na questão da propriedade e assim manter suas ‘propriedades’,ou “peças” como se chamavam por aqui os escravos, intocados em seu flagelo.
Parece que muita gente em São Paulo faz o mesmo. Fica ‘indignada’ quando lhe convém.
Parece também, que de forma surreal e sádica o maior preconceito que há no Brasil : a pobreza, - é justamente aquele que é mais pesadamente condenado a maior invisibilidade.
Apesar das festejadas e hipócritas ‘permissões’ que esta sociedade conservadora parece conceder agora - por exemplo permitindo maior visibilidade aos homossexuais, - há a inegável permanência daquilo que lhe é verdadeiramente “sagrado” e intocável : a manutenção da injustiça social e a exclusão de milhões.
Isso sim é sensível. E, de verdade o que realmente incomoda a eles nesta eleição.
Pensando ainda o caso do percurso feito pelos homossexuais, especialmente em São Paulo, - lugar das maiores manifestações públicas deste grupo, - parece ser bastante significativo como a lógica do preconceito opera e apesar de se revestir de ‘moderno’ mantém com uma tranqüilidade, quase que total, - sua capacidade de resistir fazendo como sempre fez : isolando o particular do geral, alienando uma coisa da outra para melhor administrar e confundir - e assim manter as mudanças – quase sempre cosméticas - sob seu controle.
Assim, se pensarmos no teor que movimentaram ações públicas de grupos imensamente numerosos nesta cidade nas últimas décadas, vamos ver uma nítida predominância de dois grandes grupos : Gays e Evangélicos.
São eles e ninguém mais que conseguem, seja lá por quais razões, movimentarem milhões de adeptos em suas manifestações.
O que eles parecem ter em comum ?
Aparentemente, nada certo ? Errado.
Chega a ser engraçado, em alguns momentos, as semelhanças dos discursos.
Tanto os gays quanto os evangélicos, - especialmente pentecostais, - parecem ter uma fixação muito clara em seus discursos : a questão do consumo.
Num país com, ainda, milhões de miseráveis, completamente excluídos de qualquer acesso a algo que não seja sua sobrevivência - é no mínimo estranho que tanta gente não perceba o tamanho desta contradição.
Não há uma só declaração destes grupos onde o consumismo como valor supremo não fique patente.
Para uns, a manifestação é claramente uma celebração de um tipo de fé específico – assim como são as marcas de roupa, de automóveis ou de celulares – Fé que possui o poder de tornar seus discípulos ‘escolhidos’ e assim aptos a entrarem no maravilhoso reino..... dos céus ? - Não..... - no reino do consumo.
- “Com Jesus de fiador poderei comprar, possuir, ter, realizar negócios, etc”
Se tornar fiel parece ser pressuposto para a obtenção de um nível de consumo e os programas da TV mostram as realizações divinas através das marcas de sucesso num grande pastiche de espiritualidade misturada com aumento do poder aquisitivo, gente com roupa bonita, carros de luxo, champagne , etc . Tudo sob as bênçãos de um Jesus que – por vezes mais parece um ótimo corretor de valores.
Enquanto isso o outro grupo também parece definir de forma absoluta a condição homossexual como, também prioritariamente sinônimo de consumo.
Toda parada gay, ano após ano - monotonamente nos entope de declarações por toda a mídia :
“O Gay é um consumidor, vai trazer não sei quantos milhares de dólares pra São Paulo, vão lotar os hotéis, vão encher os bares, blá, blá, bla, ...”
Aparentemente pedindo ‘desculpas ‘ por ocupar o espaço público, os gays parecem necessitar ‘agradar’ os que realmente mandam e assim – consciente ou inconsciente ? – Reproduzem seu maior ‘valor’ de classe : o ódio aos pobres sugerindo implicitamente, que os gays são fundamentalmente diferente dos pobres.
Parece que nos dois grupos o slogan subtextual que revela o valor fundamental dos movimentos é : “Seja gay ou evangélico e torne-se um consumidor.”
E é exatamente aí, a meu ver, que reside o centro da questão
Parece que, infelizmente, por baixo de uma grande capa de hipocrisia há uma forte gritaria de reforço aos piores ‘tesouros’ herdados de séculos de história de nossa tão presente barbárie social. Aparentemente o que vemos é o mais nojento e secular preconceito colonial resistindo ao longo dos tempos – e ao invés de, este sim, causar indignação : causa euforia em nossos ‘descolados’ e ‘modernos’ membros das novas tendências.
Infelizmente na nossa Democracia ainda parece sobreviver, mais vivo que nunca, o “curto-circuito” que falava Florestan Fernandes e cristalizado o espírito do escravismo colonial tão bem descrito por Jacob Gorender.
No imaginário delirante e decadente da classe média paulistana e de seus deslumbrados serviçais agregados – a indignação passa obrigatoriamente por um filtro bem estreito. Filtro obviamente muito bem construído diariamente por seus catecismos oficiais : Revista Veja, Globo, Caras, etc. Fiéis guardiões da mais sagrada instituição : a manutenção do Status Quo.
Engraçado, ainda, que este mesmo grupo – que agora se mostra tão cheio de valores elevados - não perde uma única oportunidade de demonstrar seu ódio as políticas sociais. Usando de argumentos que - por vezes - fariam Hitler se sentir representado - eles nos inundam com sua resistência a qualquer ação para assistir os milhões de miseráveis que eles mesmo ajudaram a criar. Repetindo sempre os mesmos argumentos tacanhos e idiotas de apontar os excluídos e super explorados como únicos culpados de sua situação de miséria social e política fazendo todo o possível para desmontar qualquer ação que leve a alguma transformação disto.
Essa mesma gente se esquece que, assim como fez Roosevelt no New Deal- e por imensa ironia - agora Bush - quando um país preserva e aumenta o poder de consumo de sua população com um todo - todos ganham e ao contrário – como sonham nossos ‘iluminados’ ao manter milhões de super explorados e excluídos quem perdem não são só eles.
Ahh, mas isso não acontece por aqui. Não é mesmo ?
Aqui - Nós ficamos indignados, - mas sempre nos contentamos com pouco !!
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Entenda os protestos contra Morales na Bolívia
09/09/2008 - 19h20
da Folha Online
Cinco dos nove departamentos (Estados) da Bolívia iniciaram nesta segunda-feira (08) a terceira semana de protestos contra o presidente Evo Morales. Estradas foram bloqueadas, escritórios estatais tomados e as fronteiras com Brasil, Argentina e Paraguai foram fechadas.
Carlos Hugo Vaca/Reuters
Manifestantes entram em confronto com a polícia, durante protestos em Santa Cruz
As manifestações estão concentradas na região do Chaco boliviano, no sudeste do país, onde as maiores reservas de gás do país fazem fronteira com Brasil, Argentina e Paraguai. Há bloqueios nos departamentos (Estados) oposicionistas de Tarija, Beni, Pando, Chuquisaca e Santa Cruz.
Os governadores desses departamentos lideram os protestos contra o governo de Morales. No centro do debate estão: a nova Constituição, proposta pelo presidente boliviano, e um programa de pensão aos idosos do país, que conta com verbas obtidas da renda do gás.
Cerne do debate
Os últimos distúrbios começaram, depois que o departamento de Tarija, onde se concentra 60% da produção de gás e 85% das reservas do país, se opôs à decisão do governo de reduzir o repasse das verbas do principal imposto petrolífero do país, o IDH. Morales anunciou a medida com o intuito de aumentar a pensão dos idosos.
Em seguida, os outros quatro departamentos oposicionistas concordaram com Tarija e iniciaram protestos contra Morales. Eles argumentam que as verbas dirigidas aos idosos são o dobro do necessário e temem que o governo volte a reduzir os repasses de verbas.
Nas últimas horas, autoridades bolivianas reconheceram que os departamentos oposicionistas estão praticamente isolados devido aos protestos nas estradas. Em várias cidades bolivianas, os moradores são obrigados a fazer longas caminhadas e, de acordo com o governo, já há escassez de alguns itens de alimentação
Carros, manifestantes e montanhas de areia interrompem o trânsito nas cidades de San Vicente e San Matías, em Santa Cruz, no caminho para Cuiabá (MT), e de Puerto Suarez, em frente a Corumbá (MS).
No departamento de Tarija, foram registrados 17 pontos de bloqueio, em todas as estradas de acesso a essa região e nas cidades de Bermejo e Yacuiba, na fronteira com a Argentina onde os manifestantes ameaçam tomar os poços petrolíferos. Em Santa Cruz, todos os pedágios estavam tomados.
Constituição
O outro principal fator para o agravamento da crise na Bolívia é o projeto da nova Constituição, idealizada por Morales e rejeitada pela oposição. Depois do referendo revogatório do dia 10 de agosto, em que Morales e a maior parte dos governadores da oposição tiveram seus mandatos confirmados, o presidente tenta obter apoio para um referendo sobre o projeto da Carta Magna.
Morales obteve 67,4% dos votos, com grande aprovação até nas regiões opositoras, e resolveu convocar para dezembro os referendos necessários para promulgar a nova Constituição -um deles limitará o tamanho de latifúndios, tema sensível nas férteis terras do leste. A oposição rejeita a Carta, aprovada por constituintes governistas no ano passado.
Carlos Hugo Vaca/Reuters
Soldados tentam conter protestos da oposição contra o governo de Evo Morales, no departamento de Santa Cruz, no sudeste da Bolívia
O presidente anunciou neste sábado (06) que enviou ao Congresso um projeto de lei para a convocação dos dois referendos que faltam para a ratificação da nova Constituição. Em 28 de agosto, Morales decidiu, por decreto, que as duas consultas acontecerão dia 7 de dezembro.
Mas a Corte Nacional Eleitoral declarou-se impedida de preparar a votação, porque os referendos teriam de passar pelo Parlamento. Em resposta, Morales acusou o tribunal de "subordinação à direita", mas acabou baixando o tom do discurso.
O governo não tem maioria no Senado. Agora, Morales deve repetir estratégia que já usou em episódios anteriores: convocar sessão conjunta do Parlamento -com a Câmara, os governistas são maioria- enquanto milhares de simpatizantes cercam o edifício para pressionar pela votação.
Fronteira com o Brasil
A crise ameaça também o envio de combustíveis ao Brasil, que é o principal importador de gás da Bolívia. Mais de 70% do que o mercado brasileiro compra se destina ao mercado paulista.
No final de semana, integrantes do comitê cívico local --que reúne empresários e comerciantes aliados dos governadores de oposição-- ocuparam uma estação de compressão de gás, nos arredores de Tarija.
Foi a primeira invasão de uma instalação de gás desde que os líderes oposicionistas ameaçaram interromper a distribuição para Brasil e Argentina. Na sexta-feira (05), o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que a Embaixada do Brasil em La Paz estava em contato com líderes da oposição e descartou que os manifestantes cumprissem suas ameaças.
Nesta segunda-feira (08), em Beni, os líderes opositores disseram que "não permitirão" as saídas para o Brasil "por Guayaramerín", ao passo que, em Pando, as pontes Internacional e da Amizade, que fazem ligação com o território brasileiro, também foram fechadas, informou a imprensa local.
"Faremos todo o possível para que restituam o IDH, reconheçam a autonomia departamental', e para que o governo 'detenha essa Constituição (...) que quer nos impor", disse David Sejas, presidente da União Juvenil Cruzenha.
Arte/Folha Online
Mapa de Villamontes na Bolívia.
O ativista lembrou que termina hoje a "trégua" de 72 horas dada pelas organizações civis, após a qual a pressão dos protestos deverá ser intensificada. Segundo Sejas, não estão descartadas a ocupação de aeroportos e o corte nas exportações de gás ao Brasil e à Argentina.
Há 15 dias, o bloqueio de estradas no leste e no sul da Bolívia provocou uma grave crise no fornecimento de combustíveis aos quatro departamentos. Desta vez, o acirramento dos protestos pode retomar o cenário de escassez.
Entre as estradas bloqueadas pelos manifestantes está o acesso a um megacampo de gás no extremo sul da Bolívia operado pela Petrobras.
Diante das ameaças, o governo militarizou campos e unidades de gás, assim como instalações públicas, nos departamentos de Tarija e Santa Cruz, ambos de oposição a Morales.
O chefe das Forças Armadas, general Luis Trigo, disse à imprensa boliviana nesta segunda-feira que os governadores das regiões que realizam manifestações devem "dialogar" com o governo.
"Pedimos o diálogo e que se evitem enfrentamentos", afirmou. "Temos que proteger áreas vitais do país, como a infra-estrutura, os recursos energéticos. Por isso, pedimos cabeça fria para negociar. E vamos evitar os enfrentamentos porque o pior seria que ocorressem mortes", afirmou Trigo.
Reforma no governo
Em meio à crise, Morales empossou nesta segunda-feira cinco ministros, realizando um ajuste no gabinete. Ingressaram no governo: o novo ministro da Saúde, Ramiro Tapia, que assumiu a pasta de Wálter Selum e o ministro de Hidrocarbonetos Saúl Avalos, que substituiu Carlos Villegas, que passou ao ministério do Planejamento.
Martín Alipaz-11.ago.2008/Efe
O presidente boliviano, Evo Morales, obteve no referendo o apoio de 67,43% da população para continuar em seu cargo
Carlos Romero assumiu como ministro do Desenvolvimento Rural e Agropecuário no lugar de Susana Rivero, que passou ao ministério da Microempresa. A dança das cadeiras no ministério de Morales --especialmente na área de hidrocarbonetos-- surpreendeu políticos e analistas. Foi a terceira reforma ministerial do atual governo em dois anos e meio de gestão, desde a posse em janeiro de 2006.
Na pasta de Hidrocarbonetos, Villegas era visto como "moderado" por interlocutores de países vizinhos. Ávalos ficou mais conhecido durante a Assembléia Constituinte, da qual foi integrante e defensor das propostas do governo.
Em maio passado, ele foi designado pela administração central como "interventor" --equivalente a diretor, indicado pelo presidente-- da CLHB (Companhia Logística de Hidrocarbonetos da Bolívia). A empresa foi nacionalizada e controla quase vinte locais de armazenagem de combustíveis, além de oleodutos, que abastecem o mercado boliviano.
Com agências internacionais
da Folha Online
Cinco dos nove departamentos (Estados) da Bolívia iniciaram nesta segunda-feira (08) a terceira semana de protestos contra o presidente Evo Morales. Estradas foram bloqueadas, escritórios estatais tomados e as fronteiras com Brasil, Argentina e Paraguai foram fechadas.
Carlos Hugo Vaca/Reuters
Manifestantes entram em confronto com a polícia, durante protestos em Santa Cruz
As manifestações estão concentradas na região do Chaco boliviano, no sudeste do país, onde as maiores reservas de gás do país fazem fronteira com Brasil, Argentina e Paraguai. Há bloqueios nos departamentos (Estados) oposicionistas de Tarija, Beni, Pando, Chuquisaca e Santa Cruz.
Os governadores desses departamentos lideram os protestos contra o governo de Morales. No centro do debate estão: a nova Constituição, proposta pelo presidente boliviano, e um programa de pensão aos idosos do país, que conta com verbas obtidas da renda do gás.
Cerne do debate
Os últimos distúrbios começaram, depois que o departamento de Tarija, onde se concentra 60% da produção de gás e 85% das reservas do país, se opôs à decisão do governo de reduzir o repasse das verbas do principal imposto petrolífero do país, o IDH. Morales anunciou a medida com o intuito de aumentar a pensão dos idosos.
Em seguida, os outros quatro departamentos oposicionistas concordaram com Tarija e iniciaram protestos contra Morales. Eles argumentam que as verbas dirigidas aos idosos são o dobro do necessário e temem que o governo volte a reduzir os repasses de verbas.
Nas últimas horas, autoridades bolivianas reconheceram que os departamentos oposicionistas estão praticamente isolados devido aos protestos nas estradas. Em várias cidades bolivianas, os moradores são obrigados a fazer longas caminhadas e, de acordo com o governo, já há escassez de alguns itens de alimentação
Carros, manifestantes e montanhas de areia interrompem o trânsito nas cidades de San Vicente e San Matías, em Santa Cruz, no caminho para Cuiabá (MT), e de Puerto Suarez, em frente a Corumbá (MS).
No departamento de Tarija, foram registrados 17 pontos de bloqueio, em todas as estradas de acesso a essa região e nas cidades de Bermejo e Yacuiba, na fronteira com a Argentina onde os manifestantes ameaçam tomar os poços petrolíferos. Em Santa Cruz, todos os pedágios estavam tomados.
Constituição
O outro principal fator para o agravamento da crise na Bolívia é o projeto da nova Constituição, idealizada por Morales e rejeitada pela oposição. Depois do referendo revogatório do dia 10 de agosto, em que Morales e a maior parte dos governadores da oposição tiveram seus mandatos confirmados, o presidente tenta obter apoio para um referendo sobre o projeto da Carta Magna.
Morales obteve 67,4% dos votos, com grande aprovação até nas regiões opositoras, e resolveu convocar para dezembro os referendos necessários para promulgar a nova Constituição -um deles limitará o tamanho de latifúndios, tema sensível nas férteis terras do leste. A oposição rejeita a Carta, aprovada por constituintes governistas no ano passado.
Carlos Hugo Vaca/Reuters
Soldados tentam conter protestos da oposição contra o governo de Evo Morales, no departamento de Santa Cruz, no sudeste da Bolívia
O presidente anunciou neste sábado (06) que enviou ao Congresso um projeto de lei para a convocação dos dois referendos que faltam para a ratificação da nova Constituição. Em 28 de agosto, Morales decidiu, por decreto, que as duas consultas acontecerão dia 7 de dezembro.
Mas a Corte Nacional Eleitoral declarou-se impedida de preparar a votação, porque os referendos teriam de passar pelo Parlamento. Em resposta, Morales acusou o tribunal de "subordinação à direita", mas acabou baixando o tom do discurso.
O governo não tem maioria no Senado. Agora, Morales deve repetir estratégia que já usou em episódios anteriores: convocar sessão conjunta do Parlamento -com a Câmara, os governistas são maioria- enquanto milhares de simpatizantes cercam o edifício para pressionar pela votação.
Fronteira com o Brasil
A crise ameaça também o envio de combustíveis ao Brasil, que é o principal importador de gás da Bolívia. Mais de 70% do que o mercado brasileiro compra se destina ao mercado paulista.
No final de semana, integrantes do comitê cívico local --que reúne empresários e comerciantes aliados dos governadores de oposição-- ocuparam uma estação de compressão de gás, nos arredores de Tarija.
Foi a primeira invasão de uma instalação de gás desde que os líderes oposicionistas ameaçaram interromper a distribuição para Brasil e Argentina. Na sexta-feira (05), o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que a Embaixada do Brasil em La Paz estava em contato com líderes da oposição e descartou que os manifestantes cumprissem suas ameaças.
Nesta segunda-feira (08), em Beni, os líderes opositores disseram que "não permitirão" as saídas para o Brasil "por Guayaramerín", ao passo que, em Pando, as pontes Internacional e da Amizade, que fazem ligação com o território brasileiro, também foram fechadas, informou a imprensa local.
"Faremos todo o possível para que restituam o IDH, reconheçam a autonomia departamental', e para que o governo 'detenha essa Constituição (...) que quer nos impor", disse David Sejas, presidente da União Juvenil Cruzenha.
Arte/Folha Online
Mapa de Villamontes na Bolívia.
O ativista lembrou que termina hoje a "trégua" de 72 horas dada pelas organizações civis, após a qual a pressão dos protestos deverá ser intensificada. Segundo Sejas, não estão descartadas a ocupação de aeroportos e o corte nas exportações de gás ao Brasil e à Argentina.
Há 15 dias, o bloqueio de estradas no leste e no sul da Bolívia provocou uma grave crise no fornecimento de combustíveis aos quatro departamentos. Desta vez, o acirramento dos protestos pode retomar o cenário de escassez.
Entre as estradas bloqueadas pelos manifestantes está o acesso a um megacampo de gás no extremo sul da Bolívia operado pela Petrobras.
Diante das ameaças, o governo militarizou campos e unidades de gás, assim como instalações públicas, nos departamentos de Tarija e Santa Cruz, ambos de oposição a Morales.
O chefe das Forças Armadas, general Luis Trigo, disse à imprensa boliviana nesta segunda-feira que os governadores das regiões que realizam manifestações devem "dialogar" com o governo.
"Pedimos o diálogo e que se evitem enfrentamentos", afirmou. "Temos que proteger áreas vitais do país, como a infra-estrutura, os recursos energéticos. Por isso, pedimos cabeça fria para negociar. E vamos evitar os enfrentamentos porque o pior seria que ocorressem mortes", afirmou Trigo.
Reforma no governo
Em meio à crise, Morales empossou nesta segunda-feira cinco ministros, realizando um ajuste no gabinete. Ingressaram no governo: o novo ministro da Saúde, Ramiro Tapia, que assumiu a pasta de Wálter Selum e o ministro de Hidrocarbonetos Saúl Avalos, que substituiu Carlos Villegas, que passou ao ministério do Planejamento.
Martín Alipaz-11.ago.2008/Efe
O presidente boliviano, Evo Morales, obteve no referendo o apoio de 67,43% da população para continuar em seu cargo
Carlos Romero assumiu como ministro do Desenvolvimento Rural e Agropecuário no lugar de Susana Rivero, que passou ao ministério da Microempresa. A dança das cadeiras no ministério de Morales --especialmente na área de hidrocarbonetos-- surpreendeu políticos e analistas. Foi a terceira reforma ministerial do atual governo em dois anos e meio de gestão, desde a posse em janeiro de 2006.
Na pasta de Hidrocarbonetos, Villegas era visto como "moderado" por interlocutores de países vizinhos. Ávalos ficou mais conhecido durante a Assembléia Constituinte, da qual foi integrante e defensor das propostas do governo.
Em maio passado, ele foi designado pela administração central como "interventor" --equivalente a diretor, indicado pelo presidente-- da CLHB (Companhia Logística de Hidrocarbonetos da Bolívia). A empresa foi nacionalizada e controla quase vinte locais de armazenagem de combustíveis, além de oleodutos, que abastecem o mercado boliviano.
Com agências internacionais
Entenda o que é a camada pré-sal
02/09/2008 - 11h48
da Folha Online
A chamada camada pré-sal é uma faixa que se estende ao longo de 800 quilômetros entre os Estados do Espírito Santo e Santa Catarina, abaixo do leito do mar, e engloba três bacias sedimentares (Espírito Santo, Campos e Santos). O petróleo encontrado nesta área está a profundidades que superam os 7 mil metros, abaixo de uma extensa camada de sal que, segundo geólogos, conservam a qualidade do petróleo (veja figura abaixo).
Vários campos e poços de petróleo já foram descobertos no pré-sal, entre eles o de Tupi, o principal. Há também os nomeados Guará, Bem-Te-Vi, Carioca, Júpiter e Iara, entre outros.
Arte Folha
Um comunicado, em novembro do ano passado, de que Tupi tem reservas gigantes, fez com que os olhos do mundo se voltassem para o Brasil e ampliassem o debate acerca da camada pré-sal. À época do anúncio, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) chegou a dizer que o Brasil tem condições de se tornar exportador de petróleo com esse óleo.
Tupi tem uma reserva estimada pela Petrobras entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris de petróleo, sendo considerado uma das maiores descobertas do mundo dos últimos sete anos.
Neste ano, as ações da estatal tiveram forte oscilação depois que a empresa britânica BG Group (parceira do Brasil em Tupi, com 25%) divulgou nota estimando uma capacidade entre 12 bilhões e 30 bilhões de barris de petróleo equivalente em Tupi. A portuguesa Galp (10% do projeto) confirmou o número.
Para termos de comparação, as reservas provadas de petróleo e gás natural da Petrobras no Brasil ficaram em 13,920 bilhões (barris de óleo equivalente) em 2007, segundo o critério adotado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo). Ou seja, se a nova estimativa estiver correta, Tupi tem potencial para até dobrar o volume de óleo e gás que poderá ser extraído do subsolo brasileiro.
Estimativas apontam que a camada, no total, pode abrigar algo próximo de 100 bilhões de boe (barris de óleo equivalente) em reservas, o que colocaria o Brasil entre os dez maiores produtores do mundo.
Mais dúvidas
A Petrobras, uma das empresas pioneiras nesse tipo de perfuração profunda, porém, não sabe exatamente o quanto de óleo e gás pode ser extraído de cada campo e quando isso começaria a trazer lucros ao país.
Ainda no rol de perguntas sem respostas, a Petrobras não descarta que toda a camada pré-sal seja interligada, e suas reservas sejam unitizadas, formando uma reserva gigantesca.
Justamente por conta do desconhecimento sobre o potencial da camada pré-sal o governo decidiu que retomará os leilões de concessões de exploração de petróleo no Brasil apenas nas áreas localizadas em terra e em águas rasas. Afinal, se a camada for única, o Brasil ainda não tem regras de como leiloaria sua exploração.
Assim, toda a região em volta do pré-sal não será leiloada até que sejam definidas as novas regras de exploração de petróleo no país (Lei do Petróleo), que voltaram a ser discutidas pelo Planalto --foi criada uma comissão interministerial para debater modelos em vigor em outros países e o destino dos recursos do óleo extraído.
Além disso, o governo considera criar uma nova estatal para administrar os megacampos, que contrataria outras petrolíferas para a exploração --isso porque os custos de exploração e extração são altíssimos. Os motivos alegados no governo para não entregar a região à exploração da Petrobras são a participação de capital privado na empresa e o risco de a empresa tornar-se poderosa demais.
Opiniões
O diretor de exploração e produção da Petrobras, Guilherme Estrella, disse que a discussão em torno das mudanças no marco regulatório do petróleo não levará em conta o interesse privado.
"Existem vários interesses públicos e privados envolvidos nessa questão. A Petrobras é uma empresa que tem controle governamental, mas tem acionistas privados, que têm que ser respeitados. Ao mesmo tempo, o aproveitamento dessas riquezas é questão de Estado brasileiro", reconheceu.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem feito vários discursos em que mencionou que as reservas pertencem ao "povo brasileiro" e devem ser usadas em benefício do país, como para aplicações na educação. Lula chegou a mencionar que as reservas eram uma chance divina e deveria ser usada para reparar uma dívida com os mais pobres.
da Folha Online
A chamada camada pré-sal é uma faixa que se estende ao longo de 800 quilômetros entre os Estados do Espírito Santo e Santa Catarina, abaixo do leito do mar, e engloba três bacias sedimentares (Espírito Santo, Campos e Santos). O petróleo encontrado nesta área está a profundidades que superam os 7 mil metros, abaixo de uma extensa camada de sal que, segundo geólogos, conservam a qualidade do petróleo (veja figura abaixo).
Vários campos e poços de petróleo já foram descobertos no pré-sal, entre eles o de Tupi, o principal. Há também os nomeados Guará, Bem-Te-Vi, Carioca, Júpiter e Iara, entre outros.
Arte Folha
Um comunicado, em novembro do ano passado, de que Tupi tem reservas gigantes, fez com que os olhos do mundo se voltassem para o Brasil e ampliassem o debate acerca da camada pré-sal. À época do anúncio, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) chegou a dizer que o Brasil tem condições de se tornar exportador de petróleo com esse óleo.
Tupi tem uma reserva estimada pela Petrobras entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris de petróleo, sendo considerado uma das maiores descobertas do mundo dos últimos sete anos.
Neste ano, as ações da estatal tiveram forte oscilação depois que a empresa britânica BG Group (parceira do Brasil em Tupi, com 25%) divulgou nota estimando uma capacidade entre 12 bilhões e 30 bilhões de barris de petróleo equivalente em Tupi. A portuguesa Galp (10% do projeto) confirmou o número.
Para termos de comparação, as reservas provadas de petróleo e gás natural da Petrobras no Brasil ficaram em 13,920 bilhões (barris de óleo equivalente) em 2007, segundo o critério adotado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo). Ou seja, se a nova estimativa estiver correta, Tupi tem potencial para até dobrar o volume de óleo e gás que poderá ser extraído do subsolo brasileiro.
Estimativas apontam que a camada, no total, pode abrigar algo próximo de 100 bilhões de boe (barris de óleo equivalente) em reservas, o que colocaria o Brasil entre os dez maiores produtores do mundo.
Mais dúvidas
A Petrobras, uma das empresas pioneiras nesse tipo de perfuração profunda, porém, não sabe exatamente o quanto de óleo e gás pode ser extraído de cada campo e quando isso começaria a trazer lucros ao país.
Ainda no rol de perguntas sem respostas, a Petrobras não descarta que toda a camada pré-sal seja interligada, e suas reservas sejam unitizadas, formando uma reserva gigantesca.
Justamente por conta do desconhecimento sobre o potencial da camada pré-sal o governo decidiu que retomará os leilões de concessões de exploração de petróleo no Brasil apenas nas áreas localizadas em terra e em águas rasas. Afinal, se a camada for única, o Brasil ainda não tem regras de como leiloaria sua exploração.
Assim, toda a região em volta do pré-sal não será leiloada até que sejam definidas as novas regras de exploração de petróleo no país (Lei do Petróleo), que voltaram a ser discutidas pelo Planalto --foi criada uma comissão interministerial para debater modelos em vigor em outros países e o destino dos recursos do óleo extraído.
Além disso, o governo considera criar uma nova estatal para administrar os megacampos, que contrataria outras petrolíferas para a exploração --isso porque os custos de exploração e extração são altíssimos. Os motivos alegados no governo para não entregar a região à exploração da Petrobras são a participação de capital privado na empresa e o risco de a empresa tornar-se poderosa demais.
Opiniões
O diretor de exploração e produção da Petrobras, Guilherme Estrella, disse que a discussão em torno das mudanças no marco regulatório do petróleo não levará em conta o interesse privado.
"Existem vários interesses públicos e privados envolvidos nessa questão. A Petrobras é uma empresa que tem controle governamental, mas tem acionistas privados, que têm que ser respeitados. Ao mesmo tempo, o aproveitamento dessas riquezas é questão de Estado brasileiro", reconheceu.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem feito vários discursos em que mencionou que as reservas pertencem ao "povo brasileiro" e devem ser usadas em benefício do país, como para aplicações na educação. Lula chegou a mencionar que as reservas eram uma chance divina e deveria ser usada para reparar uma dívida com os mais pobres.
Entenda a tensão envolvendo a Geórgia e a Rússia
27/08/2008 - 07h46
da BBC
A Rússia reconheceu formalmente a independência das Províncias separatistas georgianas da Ossétia do Sul e da Abkházia.
A decisão provocou uma reação do governo da Geórgia, que acusou a Rússia de estar anexando ostensivamente seu território.
Arte/Folha Online
A comunidade internacional também reagiu à medida russa. Os Estados Unidos e a França qualificaram a decisão de "lamentável". O Reino Unido disse que rejeita categoricamente a medida.
A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) disse que a declaração viola várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU endossadas pela própria Rússia.
Entretanto, os líderes da Ossétia do Sul e da Abkházia, que proclamaram independência no início da década de 1990, agradeceram à Rússia.
No início deste mês, forças georgianas, russas e da própria Ossétia do Sul estiveram envolvidas em combates que causaram mortes e destruição na Província.
Ocorreram ainda choques na Abkházia e ataques russos em outras partes da Geórgia.
Saiba mais sobre o conflito.
O que provocou a atual crise vigente?
Uma série de choques entre forças da Geórgia e da Ossétia do Sul nas últimas semanas levou a Geórgia a realizar um ataque por terra e ar à Ossétia do Sul no dia 7 de agosto.
As forças georgianas controlaram a capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, durante parte do dia seguinte.
A Rússia, por sua vez, enviou milhares de soldados para a Ossétia do Sul, e realizou bombardeios na Província e em alvos em outras partes da Geórgia.
Há relatos de crimes de guerra de ambos os lados, que não tiveram verificação independente.
As forças russas entraram na Ossétia do Sul antes ou depois do ataque georgiano?
A seqüência de eventos não está clara. A Geórgia diz que começou seu ataque depois de saber que um grande comboio de tanques russos estava passando pelo túnel Roki, da Ossétia do Norte para a do Sul.
Já a Rússia diz que agiu para defender os cidadãos russos na Ossétia do Sul e seus próprios soldados de paz estacionados na região separatista.
Como o conflito se desenvolveu?
Forças russas ocuparam partes da Geórgia em volta da Ossétia do Sul, inclusive Gori, uma cidade estratégica na principal estrada que liga o leste e o oeste da Geórgia.
Os soldados russos também se deslocaram de bases na Abkházia para partes no oeste da Geórgia, e a frota russa enfrentou a marinha georgiana.
Forças da Abkházia recapturaram o desfiladeiro de Kodori --uma região da Abkházia tomada pelas tropas georgianas em 2006.
Quem são os mortos e os feridos?
Muitos civis tiveram de abandonar suas casas na Ossétia do Sul. Vários deles cruzaram a fronteira e foram para a Ossétia do Norte (russa).
Moradores de vilarejos georgianos na Ossétia do Sul e da cidade de Gori também fugiram dos combates.
Há notícia de que boa parte da capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, está em ruínas.
Por que a Rússia está envolvida no caso?
Mais da metade dos 70 mil cidadãos da Ossétia do Sul teria aceitado uma oferta de cidadania russa feita por Moscou. A Rússia diz que suas ações tiveram o objetivo de proteger estes cidadãos.
A Rússia também tem soldados de paz estacionados na Ossétia do Sul. Alguns deles foram mortos no ataque georgiano no dia 7 de agosto.
Até recentemente, a Rússia disse que respeitaria a integridade territorial da Geórgia e tinha a intenção apenas de cuidar dos cidadãos russos. Mas depois do ataque georgiano, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, disse que agora é pouco provável que a Ossétia do Sul se reintegre ao resto da Geórgia.
A Geórgia tem ligações com a Otan?
O presidente Saakashvili fez da integração à Otan um de seus principais objetivos --e a Otan concordou em abril de 2008 que a Geórgia se tornará um membro da aliança de defesa ocidental no futuro, mas não fixou uma data.
O país tem laços estreitos com os Estados Unidos, e inclusive enviou soldados para a coalizão liderada pelos americanos no Iraque.
Os Estados Unidos ajudaram a treinar e armar militares da Geórgia. O país ajudou ainda tropas georgianas a voltarem do Iraque depois da incursão russa na Ossétia do Sul.
Qual é o status da Ossétia do Sul?
A Ossétia do Sul vem gerenciando seus próprios assuntos desde os combates pela sua independência da Geórgia em 1991 e 1992, ocorridos após a desintegração da União Soviética. A Abkházia declarou sua independência em 1992.
Até agora, a independência dessas duas Províncias não havia sido reconhecida por nenhum país.
No entanto, em 26 de agosto, a Rússia anunciou que reconheceu formalmente a independência das duas Províncias rebeldes.
Qual é a origem do desejo da Ossétia por independência?
O povo da Ossétia é de um grupo étnico originário das planícies da Rússia, ao sul do rio Don. No século 13, eles foram empurrados para o sul pelas invasões dos mongóis, ocupando as montanhas do Cáucaso e se estabelecendo na fronteira com a Geórgia.
O povo da Ossétia do Sul deseja se unir a seus semelhantes étnicos na Ossétia do Norte, que é uma república autônoma dentro da Federação Russa.
A comunidade de origem étnica georgiana é uma minoria na Ossétia do Sul, representando menos de um terço da população.
Mas a Geórgia rejeita até o nome da Ossétia do Sul, preferindo chamar a região por seu antigo nome, Samachablo, ou referir-se a ela como Tskhinvali, sua principal cidade.
da BBC
A Rússia reconheceu formalmente a independência das Províncias separatistas georgianas da Ossétia do Sul e da Abkházia.
A decisão provocou uma reação do governo da Geórgia, que acusou a Rússia de estar anexando ostensivamente seu território.
Arte/Folha Online
A comunidade internacional também reagiu à medida russa. Os Estados Unidos e a França qualificaram a decisão de "lamentável". O Reino Unido disse que rejeita categoricamente a medida.
A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) disse que a declaração viola várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU endossadas pela própria Rússia.
Entretanto, os líderes da Ossétia do Sul e da Abkházia, que proclamaram independência no início da década de 1990, agradeceram à Rússia.
No início deste mês, forças georgianas, russas e da própria Ossétia do Sul estiveram envolvidas em combates que causaram mortes e destruição na Província.
Ocorreram ainda choques na Abkházia e ataques russos em outras partes da Geórgia.
Saiba mais sobre o conflito.
O que provocou a atual crise vigente?
Uma série de choques entre forças da Geórgia e da Ossétia do Sul nas últimas semanas levou a Geórgia a realizar um ataque por terra e ar à Ossétia do Sul no dia 7 de agosto.
As forças georgianas controlaram a capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, durante parte do dia seguinte.
A Rússia, por sua vez, enviou milhares de soldados para a Ossétia do Sul, e realizou bombardeios na Província e em alvos em outras partes da Geórgia.
Há relatos de crimes de guerra de ambos os lados, que não tiveram verificação independente.
As forças russas entraram na Ossétia do Sul antes ou depois do ataque georgiano?
A seqüência de eventos não está clara. A Geórgia diz que começou seu ataque depois de saber que um grande comboio de tanques russos estava passando pelo túnel Roki, da Ossétia do Norte para a do Sul.
Já a Rússia diz que agiu para defender os cidadãos russos na Ossétia do Sul e seus próprios soldados de paz estacionados na região separatista.
Como o conflito se desenvolveu?
Forças russas ocuparam partes da Geórgia em volta da Ossétia do Sul, inclusive Gori, uma cidade estratégica na principal estrada que liga o leste e o oeste da Geórgia.
Os soldados russos também se deslocaram de bases na Abkházia para partes no oeste da Geórgia, e a frota russa enfrentou a marinha georgiana.
Forças da Abkházia recapturaram o desfiladeiro de Kodori --uma região da Abkházia tomada pelas tropas georgianas em 2006.
Quem são os mortos e os feridos?
Muitos civis tiveram de abandonar suas casas na Ossétia do Sul. Vários deles cruzaram a fronteira e foram para a Ossétia do Norte (russa).
Moradores de vilarejos georgianos na Ossétia do Sul e da cidade de Gori também fugiram dos combates.
Há notícia de que boa parte da capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, está em ruínas.
Por que a Rússia está envolvida no caso?
Mais da metade dos 70 mil cidadãos da Ossétia do Sul teria aceitado uma oferta de cidadania russa feita por Moscou. A Rússia diz que suas ações tiveram o objetivo de proteger estes cidadãos.
A Rússia também tem soldados de paz estacionados na Ossétia do Sul. Alguns deles foram mortos no ataque georgiano no dia 7 de agosto.
Até recentemente, a Rússia disse que respeitaria a integridade territorial da Geórgia e tinha a intenção apenas de cuidar dos cidadãos russos. Mas depois do ataque georgiano, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, disse que agora é pouco provável que a Ossétia do Sul se reintegre ao resto da Geórgia.
A Geórgia tem ligações com a Otan?
O presidente Saakashvili fez da integração à Otan um de seus principais objetivos --e a Otan concordou em abril de 2008 que a Geórgia se tornará um membro da aliança de defesa ocidental no futuro, mas não fixou uma data.
O país tem laços estreitos com os Estados Unidos, e inclusive enviou soldados para a coalizão liderada pelos americanos no Iraque.
Os Estados Unidos ajudaram a treinar e armar militares da Geórgia. O país ajudou ainda tropas georgianas a voltarem do Iraque depois da incursão russa na Ossétia do Sul.
Qual é o status da Ossétia do Sul?
A Ossétia do Sul vem gerenciando seus próprios assuntos desde os combates pela sua independência da Geórgia em 1991 e 1992, ocorridos após a desintegração da União Soviética. A Abkházia declarou sua independência em 1992.
Até agora, a independência dessas duas Províncias não havia sido reconhecida por nenhum país.
No entanto, em 26 de agosto, a Rússia anunciou que reconheceu formalmente a independência das duas Províncias rebeldes.
Qual é a origem do desejo da Ossétia por independência?
O povo da Ossétia é de um grupo étnico originário das planícies da Rússia, ao sul do rio Don. No século 13, eles foram empurrados para o sul pelas invasões dos mongóis, ocupando as montanhas do Cáucaso e se estabelecendo na fronteira com a Geórgia.
O povo da Ossétia do Sul deseja se unir a seus semelhantes étnicos na Ossétia do Norte, que é uma república autônoma dentro da Federação Russa.
A comunidade de origem étnica georgiana é uma minoria na Ossétia do Sul, representando menos de um terço da população.
Mas a Geórgia rejeita até o nome da Ossétia do Sul, preferindo chamar a região por seu antigo nome, Samachablo, ou referir-se a ela como Tskhinvali, sua principal cidade.
Entenda a crise financeira que atinge a economia dos EUA
15/09/2008 - 11h35
da Folha Online
A crise no mercado hipotecário dos EUA é uma decorrência da crise imobiliária pela qual passa o país, e deu origem, por sua vez, a uma crise mais ampla, no mercado de crédito de modo geral. O principal segmento afetado, que deu origem ao atual estado de coisas, foi o de hipotecas chamadas de "subprime", que embutem um risco maior de inadimplência.
O mercado imobiliário americano passou por uma fase de expansão acelerada logo depois da crise das empresas "pontocom", em 2001. Os juros do Federal Reserve (Fed, o BC americano) vieram caindo para que a economia se recuperasse, e o setor imobiliário se aproveitou desse momento de juros baixos. A demanda por imóveis cresceu, devido às taxas baixas de juros nos financiamentos imobiliários e nas hipotecas. Em 2003, por exemplo, os juros do Fed chegaram a cair para 1% ao ano.
Em 2005, o "boom" no mercado imobiliário já estava avançado; comprar uma casa (ou mais de uma) tornou-se um bom negócio, na expectativa de que a valorização dos imóveis fizesse da nova compra um investimento. Também cresceu a procura por novas hipotecas, a fim de usar o dinheiro do financiamento para quitar dívidas e, também, gastar (mais).
As empresas financeiras especializadas no mercado imobiliário, para aproveitar o bom momento do mercado, passaram a atender o segmento "subprime". O cliente "subprime" é um cliente de renda muito baixa, por vezes com histórico de inadimplência e com dificuldade de comprovar renda. Esse empréstimo tem, assim, uma qualidade mais baixa --ou seja, cujo risco de não ser pago é maior, mas oferece uma taxa de retorno mais alta, a fim de compensar esse risco.
Em busca de rendimentos maiores, gestores de fundos e bancos compram esses títulos "subprime" das instituições que fizeram o primeiro empréstimo e permitem que uma nova quantia em dinheiro seja emprestada, antes mesmo do primeiro empréstimo ser pago. Também interessado em lucrar, um segundo gestor pode comprar o título adquirido pelo primeiro, e assim por diante, gerando uma cadeia de venda de títulos.
Porém, se a ponta (o tomador) não consegue pagar sua dívida inicial, ele dá início a um ciclo de não-recebimento por parte dos compradores dos títulos. O resultado: todo o mercado passa a ter medo de emprestar e comprar os "subprime", o que termina por gerar uma crise de liquidez (retração de crédito).
Após atingir um pico em 2006, os preços dos imóveis, no entanto, passaram a cair: os juros do Fed, que vinham subindo desde 2004, encareceram o crédito e afastaram compradores; com isso, a oferta começa a superar a demanda e desde então o que se viu foi uma espiral descendente no valor dos imóveis.
Com os juros altos, o que se temia veio a acontecer: a inadimplência aumentou e o temor de novos calotes fez o crédito sofrer uma desaceleração expressiva no país como um todo, desaquecendo a maior economia do planeta --com menos liquidez (dinheiro disponível), menos se compra, menos as empresas lucram e menos pessoas são contratadas.
No mundo da globalização financeira, créditos gerados nos EUA podem ser convertidos em ativos que vão render juros para investidores na Europa e outras partes do mundo, por isso o pessimismo influencia os mercados globais.
Financiadoras
Em setembro do ano passado, o BNP Paribas Investment Partners --divisão do banco francês BNP Paribas-- congelou cerca de 2 bilhões de euros dos fundos Parvest Dynamic ABS, o BNP Paribas ABS Euribor e o BNP Paribas ABS Eonia, citando preocupações sobre o setor de crédito 'subprime' (de maior risco) nos EUA. Segundo o banco, os três fundos tiveram suas negociações suspensas por não ser possível avaliá-los com precisão, devido aos problemas no mercado "subprime" americano.
Depois dessa medida, o mercado imobiliário passou a reagir em pânico e algumas das principais empresas de financiamento imobiliário passaram a sofrer os efeitos da retração; a American Home Mortgage (AHM), uma das 10 maiores empresa do setor de crédito imobiliário e hipotecas dos EUA, pediu concordata. Outra das principais empresas do setor, a Countrywide Financial, registrou prejuízos decorrentes da crise e foi comprada pelo Bank of America.
Bancos como Citigroup, UBS e Bear Stearns têm anunciado perdas bilionários e prejuízos decorrentes da crise. Entre as vítimas mais recentes da crise estão as duas maiores empresas hipotecárias americanas, a Fannie Mae e a Freddie Mac. Consideradas pelo secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, "tão grandes e tão importantes em nosso sistema financeiro que a falência de qualquer uma delas provocaria uma enorme turbulência no sistema financeiro de nosso país e no restante do globo", no dia 7 deste mês foi anunciada uma ajuda de até US$ 200 bilhões.
As duas empresas possuem quase a metade dos US$ 12 trilhões em empréstimos para a habitação nos EUA; no segundo trimestre, registraram prejuízos de US$ 2,3 bilhões (Fannie Mae) e de US$ 821 milhões (Freddie Mac).
Menos sorte teve o Lehman Brothers: o governo não disponibilizou ajuda como a que foi destinada às duas hipotecárias. O banco previu na semana passada um prejuízo de US$ 3,9 bilhões e chegou a anunciar uma reestruturação. Antes disso, o banco já havia mantido conversas com o KDB (Banco de Desenvolvimento da Coréia do Sul, na sigla em inglês) em busca de vender uma parte sua, mas a negociação terminou sem acordo.
O Bank of America e o Barclays também recuaram, depois que ficou claro que o governo não iria dar suporte à compra do Lehman. Restou ao banco entregar à Corte de Falências do Distrito Sul de Nova York um pedido de proteção sob o "Capítulo 11", capítulo da legislação americana que regulamenta falências e concordatas.
Combate
Como medida emergencial para evitar uma desaceleração ainda maior da economia --o que faz crescer o medo que o EUA caiam em recessão, já que 70% do PIB americano é movido pelo consumo--, o presidente americano, George W. Bush, sancionou em fevereiro um pacote de estímulo que incluiu o envio de cheques de restituição de impostos a milhões de norte-americanos.
O pacote estipulou uma restituição de US$ 600 para cada contribuinte com renda anual de até US$ 75 mil; e US$ 1.200 para casais com renda até US$ 150 mil, além de US$ 300 adicionais por filho. Quem não paga imposto de renda, mas recebe o teto de US$ 3 mil anuais, teve direito a cheques de US$ 300.
da Folha Online
A crise no mercado hipotecário dos EUA é uma decorrência da crise imobiliária pela qual passa o país, e deu origem, por sua vez, a uma crise mais ampla, no mercado de crédito de modo geral. O principal segmento afetado, que deu origem ao atual estado de coisas, foi o de hipotecas chamadas de "subprime", que embutem um risco maior de inadimplência.
O mercado imobiliário americano passou por uma fase de expansão acelerada logo depois da crise das empresas "pontocom", em 2001. Os juros do Federal Reserve (Fed, o BC americano) vieram caindo para que a economia se recuperasse, e o setor imobiliário se aproveitou desse momento de juros baixos. A demanda por imóveis cresceu, devido às taxas baixas de juros nos financiamentos imobiliários e nas hipotecas. Em 2003, por exemplo, os juros do Fed chegaram a cair para 1% ao ano.
Em 2005, o "boom" no mercado imobiliário já estava avançado; comprar uma casa (ou mais de uma) tornou-se um bom negócio, na expectativa de que a valorização dos imóveis fizesse da nova compra um investimento. Também cresceu a procura por novas hipotecas, a fim de usar o dinheiro do financiamento para quitar dívidas e, também, gastar (mais).
As empresas financeiras especializadas no mercado imobiliário, para aproveitar o bom momento do mercado, passaram a atender o segmento "subprime". O cliente "subprime" é um cliente de renda muito baixa, por vezes com histórico de inadimplência e com dificuldade de comprovar renda. Esse empréstimo tem, assim, uma qualidade mais baixa --ou seja, cujo risco de não ser pago é maior, mas oferece uma taxa de retorno mais alta, a fim de compensar esse risco.
Em busca de rendimentos maiores, gestores de fundos e bancos compram esses títulos "subprime" das instituições que fizeram o primeiro empréstimo e permitem que uma nova quantia em dinheiro seja emprestada, antes mesmo do primeiro empréstimo ser pago. Também interessado em lucrar, um segundo gestor pode comprar o título adquirido pelo primeiro, e assim por diante, gerando uma cadeia de venda de títulos.
Porém, se a ponta (o tomador) não consegue pagar sua dívida inicial, ele dá início a um ciclo de não-recebimento por parte dos compradores dos títulos. O resultado: todo o mercado passa a ter medo de emprestar e comprar os "subprime", o que termina por gerar uma crise de liquidez (retração de crédito).
Após atingir um pico em 2006, os preços dos imóveis, no entanto, passaram a cair: os juros do Fed, que vinham subindo desde 2004, encareceram o crédito e afastaram compradores; com isso, a oferta começa a superar a demanda e desde então o que se viu foi uma espiral descendente no valor dos imóveis.
Com os juros altos, o que se temia veio a acontecer: a inadimplência aumentou e o temor de novos calotes fez o crédito sofrer uma desaceleração expressiva no país como um todo, desaquecendo a maior economia do planeta --com menos liquidez (dinheiro disponível), menos se compra, menos as empresas lucram e menos pessoas são contratadas.
No mundo da globalização financeira, créditos gerados nos EUA podem ser convertidos em ativos que vão render juros para investidores na Europa e outras partes do mundo, por isso o pessimismo influencia os mercados globais.
Financiadoras
Em setembro do ano passado, o BNP Paribas Investment Partners --divisão do banco francês BNP Paribas-- congelou cerca de 2 bilhões de euros dos fundos Parvest Dynamic ABS, o BNP Paribas ABS Euribor e o BNP Paribas ABS Eonia, citando preocupações sobre o setor de crédito 'subprime' (de maior risco) nos EUA. Segundo o banco, os três fundos tiveram suas negociações suspensas por não ser possível avaliá-los com precisão, devido aos problemas no mercado "subprime" americano.
Depois dessa medida, o mercado imobiliário passou a reagir em pânico e algumas das principais empresas de financiamento imobiliário passaram a sofrer os efeitos da retração; a American Home Mortgage (AHM), uma das 10 maiores empresa do setor de crédito imobiliário e hipotecas dos EUA, pediu concordata. Outra das principais empresas do setor, a Countrywide Financial, registrou prejuízos decorrentes da crise e foi comprada pelo Bank of America.
Bancos como Citigroup, UBS e Bear Stearns têm anunciado perdas bilionários e prejuízos decorrentes da crise. Entre as vítimas mais recentes da crise estão as duas maiores empresas hipotecárias americanas, a Fannie Mae e a Freddie Mac. Consideradas pelo secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, "tão grandes e tão importantes em nosso sistema financeiro que a falência de qualquer uma delas provocaria uma enorme turbulência no sistema financeiro de nosso país e no restante do globo", no dia 7 deste mês foi anunciada uma ajuda de até US$ 200 bilhões.
As duas empresas possuem quase a metade dos US$ 12 trilhões em empréstimos para a habitação nos EUA; no segundo trimestre, registraram prejuízos de US$ 2,3 bilhões (Fannie Mae) e de US$ 821 milhões (Freddie Mac).
Menos sorte teve o Lehman Brothers: o governo não disponibilizou ajuda como a que foi destinada às duas hipotecárias. O banco previu na semana passada um prejuízo de US$ 3,9 bilhões e chegou a anunciar uma reestruturação. Antes disso, o banco já havia mantido conversas com o KDB (Banco de Desenvolvimento da Coréia do Sul, na sigla em inglês) em busca de vender uma parte sua, mas a negociação terminou sem acordo.
O Bank of America e o Barclays também recuaram, depois que ficou claro que o governo não iria dar suporte à compra do Lehman. Restou ao banco entregar à Corte de Falências do Distrito Sul de Nova York um pedido de proteção sob o "Capítulo 11", capítulo da legislação americana que regulamenta falências e concordatas.
Combate
Como medida emergencial para evitar uma desaceleração ainda maior da economia --o que faz crescer o medo que o EUA caiam em recessão, já que 70% do PIB americano é movido pelo consumo--, o presidente americano, George W. Bush, sancionou em fevereiro um pacote de estímulo que incluiu o envio de cheques de restituição de impostos a milhões de norte-americanos.
O pacote estipulou uma restituição de US$ 600 para cada contribuinte com renda anual de até US$ 75 mil; e US$ 1.200 para casais com renda até US$ 150 mil, além de US$ 300 adicionais por filho. Quem não paga imposto de renda, mas recebe o teto de US$ 3 mil anuais, teve direito a cheques de US$ 300.
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